Paz e violência estão em nós - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de agosto de 1998
Walmor Maccarini 
Se os veículos de comunicação não mudam, persistindo na difusão da tragédia como produto de consumo e forte componente do espetáculo, que nos mudemos nós. Deixar de ler jornais e de ver televisão pode ser uma solução, mas se isto vai gerar uma briga em família - sobretudo no caso da tevê - melhor é começarmos a educar a mente para ler e ver sem absorver. Bom seria viver sem essa carga de negativismo que tais veículos nos impingem, mas se não conseguimos nos livrar da influência que exerce sobre nós a tragédia estampada nas páginas dos jornais e na tela da tevê, então estamos mais condicionados do que imaginávamos e identificados demais com essa atmosfera de violência. Se a incorporamos, é porque carregamos muito dela dentro de nós.
A rejeição sistemática à violência é também uma forma de violência.
Então, como fazer? Simplesmente encarar sem incorporar, sem absorver. Isto não quer dizer ignorar, não quer dizer ficar indiferente. Quer dizer compreender. Se compreendemos, não emitimos julgamento nem emanamos sentimentos de aprovação ou de revolta, e isto é que significa não absorver.
Se assistimos a imagens de violência na tevê, aquilo não deve ser uma verdade para nós - verdade no sentido de valor - basta que as encaremos, sem juízo de julgamento. Ao julgá-las as absorvemos, e ao absorvê-las engrossamos o inconsciente coletivo sintonizado na mesma frequencia, e é esse inconsciente que cria e recria todas as coisas. Ele gera as trovoadas e tempestades, as pestes e as guerras. Ou gera a bem-aventurança, se direcionar-se nesse sentido.
As iras coletivas que se manifestam diante dos descaminhos dos nossos iguais são uma resultante, mas criam novas formas e convertem-se em causa, e novos descaminhos se sucedem. É uma espécie de roda de sansara, que nos envolve em repetições, e no giro dessa roda já não se distinguem causa e consequência.
O rompimento desse círculo consiste exatamente em não emitirmos juízos e julgamentos ante os denominados ilícitos humanos.
Podemos contemplar o desabrochar de uma flor sem fazer uma avaliação, porque se qualificamos isto como um bem nos contrapomos a suposta existência de um mal. Basta admitir o desabrochar de uma flor como o desabrochar de uma flor...
Se buscarmos compreender tudo o que nos cerca, sem juízo analítico, então estaremos reconciliados com tudo o que nos cerca. O êxtase da vida está neste compreender. O contrário será o conflito. A manifestação de ira diante da violência alheia é um estado de conflito, e como tal não vivemos, mas nos despedaçamos. À flor basta a flor, ao espinho basta o espinho.
Se o mundo não é melhor é porque nós, que habitamos nele, não o temos permitido. Traduzindo: porque o inconsciente coletivo não o tem admitido.
Perdoar o malfeitor? Como? Simplesmente não revidando com ira, com anseio de vingança, porque senão penetramos na mesma atmosfera. Ficamos iguais, reforçamos a corrente. Passamos a fazer parte integrante dessa dinâmica. Absorvemos, ao invés de compreender. A compreensão irradia luzes purificadoras e transmutadoras; a absorção agrega, expandindo as ressonâncias dessa frequencia e favorecendo a repetição dos fatos.
Costuma-se dizer que em cima de uma desgraça vêm outras. Se tal acontece é porque temos semeado sementes da espécie. Enfatizar a desgraça é fertilizar o campo para que germinem outras mais. Uma boa prática é, de vez em quando, descermos ao porão de nosso inconsciente e trazer à tona nossas blasfêmias contra a vida, nossas iras, não-perdões, medos e inseguranças, reconhecê-los como algo que estava em nós, compreendê-los e a seguir liberá-los. Se não retiramos esses lixos de dentro de nós eles ali permanecem, fermentam-se e nos corroem. Os resultados serão os desajustes, as doenças, as amarguras.
Deixar de ler as tragédias nos jornais e desligar a tevê é um caminho; outro é manifestar essa decisão aos donos dos veículos de comunicação; outro ainda é orar por eles, para que se iluminem e se conscientizem da responsabilidade que têm, como comunicadores e manipuladores da opinião pública; desejar que ganhem todo o dinheiro de que precisem sem necessitar desses apelos à difusão da violência; imaginar isto acontecendo, mentalizar essa mudança.
Um diretor de jornal não deve pensar-se um homem comum, mas um ser superior.
Mas o melhor dos caminhos é tomarmos consciência de que temos semeado idéias de violência, através de nossos ódios, iras, invejas, ciúmes, maledicências; de nossos descasos, malquerências, arrogâncias; de nossas mesquinharias e desonestidades eventuais; e aquelas mentirinhas diárias, aparentemente inofensivas mas tão frequentes que viram hábito. Daí a transferirmos essas nossas inqualificações para à tela da tevê e às páginas dos jornais, é um passo.
Temos que desarmar nossas mentes. Não somos maus como nos imaginamos. Somos é desatentos aos nossos destemperos verbais, às nossas formas-pensamento carregadas de negativismo e maledicência (e o que pensamos se corporifica e cria asas), e por extensão às nossas ações. Gastaríamos a mesma energia fazendo tudo exatamente ao contrário: proferindo palavras mais agradáveis, emanando pensamentos mais elevados, desejando coisas boas para as pessoas, mesmo os inimigos e rivais (ah, estes!) e policiando mais nossas atitudes. Isto parece difícil, mas é a única forma de edificarmos o mundo melhor que tanto almejamos.
O mundo somos nós. Se nos mudamos, o mundo muda.
- WALMOR MACCARINI é jornalista


