Nos últimos anos de vida meu pai deixou de ler jornais todos os dias como fizera pelo menos durante uns 50 anos. Morando em Águas de S. Pedro, no interior de São Paulo, era compreensível que as informações que os jornais lhe traziam parecessem absurdas, além de repetitivas - como se queixava. Mas, sempre às quintas e domingos, aproveitava a caminhada diária que lhe recomendara o médico, para comprar o ‘‘Estadão’’ e ler a página do Paulo Francis.
Hábito esse, aliás, que tínhamos eu e outros milhões de brasileiros. No Rio, era ‘‘O Globo’’ que publicava. O jornalista Artur Xexéo, na sua coluna semanal do ‘‘Jornal do Brasil’’, expressou o sentimento ambíguo - e por isso demasiadamente humano - que tínhamos, os seus leitores fiéis: ‘‘...Seus artigos me deixavam profundamente irritado. Por isso mesmo não perdia um’’.
Não cheguei a conhecer Francis pessoalmente. Um almoço em Nova York com o nosso amigo em comum Redi não se materializou. Escrevia-lhe cartões, pois era difícil não ficar mobilizado por alguma coisa entre os tantos assuntos de que tratava e ele não respondia - mas citava-me, às vezes, no seu texto. Uma vez recebi pelo correio um exemplar do seu livro ‘‘Trinta Anos esta Noite’’ e lá estava a dedicatória: ‘‘Agradecendo a solidariedade e bilhetes amáveis. Paulo Francis’’.
Os assuntos que nos aproximaram foram a obsolescência gradual do idioma francês no mundo moderno e os revisores. Acho - mas não tenho certeza - que é dele a frase magnífica: ‘Sou contra a pena de morte, exceto para os revisores’.
Um outro desses raros gênios que, às vezes, acontecem no Brasil, Millôr Fernandes escreveu - também no JB - uma delicada crônica sobre suas lembranças do amigo de vida inteira em que atribui o lado histriônico de PF, exibido maciçamente pela TV, à atitude deliberada de criar um tipo ‘‘que, ocasionalmente, passou a imitar, antes que outros cômicos o fizessem’’.
O colunista Marcio Moreira Alves, numa declaração a ‘‘O Globo’’, verbalizou uma crítica que ouvi muitas vezes, de que de longe, no conforto do Primeiro Mundo, Francis falava mal do Brasil, um país que ele detestava e não conhecia’.
À primeira vista, parece conter um grão de verdade. Mas acho que sua irritação e o mau humor contra os falsos problemas, sempre iguais, do Brasil - a maioria dos quais podem ser resolvidos pelo simples desejo de resolvê-los, por parte de quem tem o poder de fazê-lo - revelavam, ao contrário, seu intenso e machucado amor pelo país que considera um Franz Paulo Trannin Heilborn tão brasileiro quanto o mais joão ou josé de todos os joões e josés da silva que aqui habitam.
E, pessoalmente, acho que as muitas merecidas críticas que PF fazia ao Brasil - mais aos governantes do que ao povo - encontravam eco em todas as camadas da sociedade pela evidente falibilidade de quem as formulava, com veemente perícia. Os que criticam coisas e pessoas vestidos de anjo, ou em pele de cordeiro, esvaziam seus argumentos. Ao contrário, mostrando-se vulnerável de preconceitos e contradições, as pessoas acreditam em você.
Ator que chegou a conhecer algum sucesso no teatro, Paulo Francis morreu a morte que queria e que todos nós desejamos: ‘‘como uma anestesia geral. Estamos aqui e, de repente, apagamos: That’s all, folks!’’ Por poucas horas, teria morrido triunfalmente, diante das câmeras. Ele era assim, enfático.
A burrice e a mediocridade brasileiras perderam um grande adversário. Espero que as manchetes da semana estejam erradas e que ele não tenha sido o último, pois o que é que eu vou fazer, agora, de manhã, às quintas e domingos na hora do breakfast?

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