Paulo Bernardo e o elo da transparência
Com a indicação de Paulo Bernardo para a Secretaria da Fazenda de Londrina houve um grande descontentamento. O Movimento em prol da Moralidade e Ética na Administração Pública, igualmente, não viu com bons olhos a inclusão do ex-deputado no secretariado do prefeito Nedson Micheleti. Ainda que a equipe esteja definitivamente consolidada, é necessário dizer aquilo que precisa ser dito, e exigir aquilo que precisa ser exigido. Afinal, o nome de Paulo Bernardo está envolto por uma marca nada agradável para nós londrinenses.
É Bernardo um homem competente? Não é essa a questão pela qual o Movimento se posicionou contrário à nomeação. Ao longo de seu trabalho, por certo, terá a possibilidade de demonstrar as mesmas qualidades apontadas por alguns, à frente da mesma pasta no Mato Grosso do Sul. Ele agiu honestamente? As investigações encetadas pelo Ministério Público, ao seu tempo, trarão a resposta correta.
No entanto, Paulo Bernardo pode fazer algo imediatamente. Pode tomar uma atitude que dependa somente dele. Antes, porém, lembremos de alguns fatos do passado, relevantes para a compreensão do problema. O histórico de Paulo Bernardo foi marcado por duas decisões no mínimo polêmicas: 1) Apoiar Antonio Casemiro Belinati no segundo turno das eleições municipais de Londrina, em 1996; 2) Dois anos depois, fazer dobradinha com a milionária campanha de Antônio Carlos Belinati a deputado estadual.
Um filósofo popular já dizia: É fácil fazer previsões sobre o passado. Não devemos entrar no mérito das escolhas políticas de Paulo Bernardo em 96 e 98. Mesmo porque a história da terceira gestão de Belinati já foi escrita. O triprefeito foi cassado pela Câmara e afastado pela Justiça três vezes, por desvio de dinheiro público e corrupção.
Neste ano que se encerra, houve busca e apreensão de documentos na casa do tesoureiro de Belinati, Carlos Júnior. Foram encontrados quilos e quilos de papéis com indicações de pagamentos a centenas de pessoas. O fato é que uma dessas pessoas era Paulo Bernardo. Ele figurava na longa lista de Carlos Júnior. A fatídica lista de Carlos Júnior.
Na ocasião, Bernardo disse que as verbas indicadas teriam vindo da campanha de Antônio Carlos Belinati, para custear panfletos da dobradinha estadual-federal. Disse também que, na época, não conhecia a origem dos recursos.
Desde o período em que ele foi candidato a deputado até o momento atual, o quadro político de Londrina se modificou bastante, e provavelmente disso Paulo Bernardo não saiba. O Movimento pela Moralização com ampla e legítima representação da comunidade assumiu seu papel de fiscalizador autônomo do poder. Através do Movimento Pé Vermelho, a população de Londrina desenhou a recente história política da cidade. O Ministério Público, por meio de exaustivo trabalho, chegou à conclusão de que grande parte dos recursos desviados foi usada na campanha de Antônio Carlos Belinati, filho do prefeito cassado.
Se Paulo Bernardo nada sabia sobre a origem desses recursos em 1998, agora ele sabe. Ainda mais em se tratando de homem com a sua experiência pública. Para que assuma plenamente esse grande desafio de sanear as finanças de Londrina, deve Paulo Bernardo, antes de tudo, explicações e atitudes ao povo da cidade. Deve dizer, exatamente quanto dinheiro sua campanha recebeu de Antônio Carlos Belinati em 1998. E como esse dinheiro foi gasto (de maneira detalhada). Já o fez? Deve fornecer, ao Ministério Público todas as informações e documentos necessários para que esses procedimentos de campanha fiquem esclarecidos na investigação sobre o escândalo da Prefeitura de Londrina. Já o fez? Deve abrir mão, de seu sigilo bancário e fiscal imediatamente, também em benefício dos trabalhos do Ministério Público. Já o fez?
Paulo Bernardo deve, enfim, prestar contas ao povo de Londrina. O prefeito Nedson deve ordenar que ele o faça. Se não apresentá-las, a comunidade exigirá, utilizando-se da mesma força empregada ultimamente. O elo entre a competência e a honestidade se chama transparência. E é isso que Londrina espera do futuro secretário municipal da Fazenda, para que ele possa iniciar plenamente a missão pública que lhe foi confiada.
No momento histórico em que o Movimento Pé Vermelho pede a cassação dos deputados José Janene e Antônio Carlos Belinati, e analisará o mesmo procedimento em relação ao deputado Alex Canziani, tão logo tenha a posse dos documentos coletados pelo Ministério Público, nada mais coerente do que pedir um certificado de transparência ao novo servidor público Paulo Bernardo.
É importante destacar que esta posição é a do Movimento pela Moralização na Administração Pública, deliberada em assembléia.
Exigir transparência não é patrulhamento. É cidadania.
- NEWTON CARLOS MORATTO é advogado e integrante do Movimento pela Moralização na Administração Pública





