Pau de macarrão - Luiz Edgard Bueno
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de setembro de 1998
Luiz Edgard Bueno 
A Folha de Londrina vem demonstrando através de muitas chamadas, com olhos clínicos e cirúrgicos, o momento pelo qual, na minha opinião, passa a insensibilidade pior, e a cegueira dos que desejam doar o aterro do Lago Igapó. Na relação das melhores cidades em qualidade de vida do País, percebe-se que naquelas em que se preservou e se motivou o natural, aliando-o ao homem, a pontuação foi superior às outras. Para ilustrar, uma amiga de São Paulo, com quem dividi caminhadas, trânsito e afetos, muitas vezes observou o quão limitado é o poder público para fazer nascer vida do asfalto, ou desapropriar áreas exacerbadas pelo cimento verticalizado nas construções daquela metrópole - centro motor da economia da América Latina - e que apesar dos esforços, é também o vetor maior para o cansaço visual, auditivo e das emoções.
Ainda na linha desta observação, verifica-se Curitiba: apesar de toda a propaganda, a capital está apenas na 18ª colocação no País, segundo pesquisa da ONU! E por quê? Há muitos anos, através da TV Cultura de São Paulo, no programa Opinião Nacional, inquiri um conhecido político paranaense sobre a qualidade de vida da nossa capital, e tive como resposta: Este cidadão deve ser um frustrado do Norte do Paraná, inconformado por ter perdido as eleições para o governo e a prefeitura, um Nelson Rodrigues do Norte do Paraná.
Tenho o maior carinho e admiração por nossa capital de direito e de fato, pela sua inconteste beleza, e pelos curitibanos, mas nem por isso vou dizer amém para toda besteirologia que os políticos inventaram para torná-la, no discurso, o parque sagrado do ambientalismo, pois ainda não o é, e este resultado da pesquisa demonstra o que aqui afirmo. Os seus moradores, e todos os paranaenses por opção, desejam e merecem uma Curitiba ainda melhor e no topo desta lista e, quem sabe, Londrina chegando perto.
Lá em cima, na mesma lista, observo Santos (linda cidade, privilegiada pela natureza) e Ribeirão Preto - cidades de porte - e que cuidadas foram com carinho e sensibilidade, para não sofrerem o impacto da ganância, única mercadoria que os mercadores de ilusões podem nos fornecer.
Este termo, mercadores de ilusões, não tem aplicação direta agora, sobre os que na prefeitura tentam solucionar a antiga questão, doando este aterro à iniciativa privada ou outras, mas sem dúvida terá esta aplicação conotação caso não percebam o mal que causarão à cidade e ao meio ambiente assim procedendo.
Voltando à minha amiga: ela, no ano retrasado, em viagem de férias com a família ao Rio Grande do Sul, passou com jatinho por Londrina, e fez o seguinte comentário: O Sul do Brasil é um jardim, e a tua cidade, Londrina, um dos pedaços mais lindos desta beleza natural. E lá de cima, do alto, dá para observar bem. E agora, o que fazer? Travestimo-nos de frangos ou galinhas que só olham para o próprio solo na busca da minhoca (alimento para nossa miopia) ou alçaremos vôo?
Quem sabe, os que são a favor desta imprudência não repensem as opções, preservando o que temos de melhor (beleza natural e oxigenada) sem correr o risco de torná-la um jazigo do marfim melhor? Londrina merece o aterro do Igapó preservado, e melhorado, ainda que interesses alheios à vida sadia tentem prevalecer. A natureza só se doa e aos seus órgãos, ou seja, à sua alegria e vitaidade, sem revide, em função de vida mais sadia, e se protege e ao ambiente com a força das queridas e aguerridas mães italianas com pau de macarrão nas mãos, sem aceitar estupro.


