Patinho feio, nós...
Recentemente participei, com outros 68 brasileiros e brasileiras, de uma experiência rara: assistir a uma vitória internacional de uma conterrânea. Refiro-me à autora de livros para jovens, Ana Maria Machado, que recebeu, durante o 27º Congresso Internacional do International Board on Books for Young People, o Prêmio Hans Christian Andersen, pelo conjunto de sua obra que abrange cerca de quatro décadas e mais de cem livros.
E com toda a ironia possível Ana Maria conquistou esse primeiro lugar no pódio da literatura infanto-juvenil na própria semana em que o time brasileiro foi eliminado dos Jogos Olímpicos e configurava-se uma nossa dificuldade, quase impossibilidade suspeitamente atávica, de chegar em primeiro lugar ou quem sabe de lidar com o sucesso, como diagnosticava o nosso Tom Jobim, outro vencedor incompreendido.
Tudo isso, com uma diferença significativa: até a Fórmula 1 atribui troféus aos três primeiros colocados para não falar dos Jogos Olímpicos, que distribui centenas de medalhas mas o Prêmio Hans Christian Andersen é atribuído a uma pessoa só, no mundo inteiro, que é considerada como a melhor nesse difícil e importante setor da atividade literária. É mais do que um Oscar, pois só é atribuído de dois em dois anos. E mais ainda: é a segunda vez que o Brasil ganha. Alguns anos atrás foi premiada outra brasileira: Lygia Bojunga.
Haverá, talvez, material para estudos sociológicos no fato de que tenha sido tão pequena, quase nenhuma, a repercussão no Brasil dessa magnífica vitória brasileira.
De minha parte, vibrei bastante, já que estava lá compartilhando dos trabalhos com a minha tese sobre Monteiro Lobato e a influência que sua literatura infantil exerceu em alguns milhões de brasileiros, hoje adultos, entre os quais me incluo. Claro que Lobato teria ganho o Prêmio Andersen, se ele existisse quando o escritor vivia. Ou talvez não.
Ana Maria Machado recebeu o prêmio com um discurso que gostaria de que fosse lido por todo o mundo, no Brasil e lá fora. Porque quebrou o protocolo reclamando, como boa filha de Lobato. Com o prestígio de um prêmio assim, disse, esperamos quebrar as cadeias e barreiras que nos mantêm trancados numa prisão: o gueto de escrever em português e de expressar o ponto de vista de uma cultura marginal e ignorada. Apresentar-me como representante da cultura brasileira significa, na melhor das hipóteses, ser vista sob as luzes do exotismo ou ser paternalizada, de cima, numa atitude superior e condescendente.
AMM lembrou que o fato de escrever em português condena o escritor ao silêncio e transforma suas vitórias, mesmo internacionais, em succSs destime. O verdadeiro prêmio, continuou, só virá depois, quando uma criança num país bem diferente do meu ler o que escrevo e chegar a conhecer minhas palavras, personagens, imagens, sentimentos e idéias. Só então, teremos o verdadeiro momento mágico, quando a obra premiada será recoberta pela capa da visibilidade. Traduzida, poderá ser vista em outra cultura.
Lembrando que o próprio Andersen escreveu em dinamarquês, um língua falada por menos gente do que o português, Ana observou que o mundo pôde conhecer suas histórias, por terem sido escritas num tempo em que estava em seu apogeu a preocupação romântica com a afirmação das nacionalidades (...) e não existia uma hegemonia avassaladora de uma língua sobre as outras, como ocorre hoje.
Mesmo considerando que alguns idiomas tinham mais prestígio diplomático ou poder político e eram mais difundidos que outros eles não se apoiavam num sistema maciço e eficiente para reduzir os outros ao silêncio. Além do mais, como a Dinamarca fica perto das metrópoles dos grandes impérios ocidentais e seus habitantes são louros e de pele clara (muito parecidos com seus vizinhos poderosos), não existiam grandes problemas contra a disseminação da obra de Andersen. Ficava tudo em família...
Queria ver, AMM ousou perguntar, se Hans Christian tivesse nascido brasileiro, se fosse alguém como Monteiro Lobato? Para responder que esse Andersen tropical continuaria invisível. No máximo, seria um patinho feio. Para sempre.
A longa citação é homenagem a Ana Maria Machado. Que falou as coisas que eu gostaria de ter dito.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente de instituição universitária no Rio de Janeiro





