Há eventos que marcam. Há momentos que nos transformam, que nos enriquecem. Há encontros que são únicos. Há poucos dias atrás, assim foi! Reencontrei durante um almoço, o meu estimado amigo pastor Messias. Sua áurea bíblico-espiritual é envolvente. Ninguém cruza com ele inadvertidamente. A sagacidade dos seus olhos, reflete o brilho de um enamorado pela Palavra que é o próprio Cristo, a quem ele entregou a sua existência aos 17 anos. Nunca mais olhou para trás! Messias faz jus ao nome!

Sem pressa, dirige os seus passos pautados pela idade, olha o interlocutor de frente, pega o seu rosto entre as mãos e saúda-o com o ósculo da paz. Assim são os que professam o nome do Cristo! Quebram barreiras, destroem fossos, abominam preconceitos, abrem espaço ao diferente. São ecumênicos por natureza, privilegiam o que nos une em detrimento do que eventualmente poder-nos-ia separar.

Pastor Messias cultivou uma linda e sadia amizade com dom Albano, terceiro arcebispo de Londrina. Os dois oravam juntos pela cidade e “trocavam figurinhas”, usando uma gíria bem popular! É o reverendo que agora evoca o nome do bispo com o máximo de reverência, deixando que os seus olhos marejem ao reviver episódios marcantes. Memórias que levará até ao encontro definitivo.

Rimos juntos. Ótimas risadas beirando a gargalhada! O rir é humano. O humor rima com amor. Jesus era bem humorado, me lembrou o jubilado. Tive que concordar. Com o humor se conquistam corações. O Mestre não era rígido, engessado ou taciturno. Bem pelo contrário! Gostava de comer e beber com os amigos, assim como nós o estávamos fazendo ali. Entre uma garfada e outra, vinha um versículo bíblico, uma atitude de Jesus inolvidável na vida de quem com Ele se encontrava! Trazíamos para os dias de hoje a Espiritualidade do caso. Isso é evangelizar, pastorear. A Bíblia não é letra morta! O pastor Messias transita pelo Antigo e Novo Testamento com a desenvoltura de um verdadeiro “homem de Deus”. Dá gosto escutá-lo e perceber o seu senso de oportunidade na evocação de um determinado capítulo ou versículo! É invejável!

A primeira vez que me embriaguei com a sua sabedoria – aquela que não se estuda nos bancos universitários – foi numa celebração natalina, num Banco. “Os magos, depois que encontraram Jesus, seguiram por outro caminho” (Mt 2,12). Nunca mais deixei passar um ano, sem fazer referência a esta passagem e apontar o nome do pastor que a resgatou, naquela manhã de dezembro. Desde aí, sucederam-se inúmeros, inclusive inéditos, como quando o convidei para pregar na missa nos sagrados Corações. Na época, brincávamos que as nossas celebrações de domingo à noite, saturavam o trânsito na rua Mato Grosso!

Contudo, a que mais me marcou, foi durante uma celebração do Dia Internacional da Mulher. Era na igreja católica e, portanto, fui gentil, deixando-o falar primeiro. Ele simplesmente, disse tudo que eu tinha preparado! Restou-me a mim, o bom senso de concluir: “o Pastor Messias tem 48 anos de ministério e eu 12; então faço minhas as suas palavras”! O povo aplaudiu, até porque o calor era insuportável!

No final do referido almoço, o ancião – acompanhado de outro amigo, o pastor José António – nos presenteou com uma suculenta e esplêndida sobremesa! Várias passagens bíblicas “ditas sobre nós”; mas uma especial, à minha pessoa: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim; porque me ungiu, para pregar boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração” (Is 61,1). Esse mesmo texto, Jesus o leu em Nazaré, a sua terra Natal (Lc 4, 16).

O Messias de Londrina é o ungido do Senhor e por onde passou deixou um rastro de eternidade, um odor de Deus. É uma lenda londrinense. É um patrimônio que ultrapassa a denominação protestante. Ganhei o dia com esse almoço!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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