'Passo e fico, como o universo'
Só Deus sabe o que vai acontecer comigo daqui pra frente, mas eu quero mudar de vida, pois aqui não é o meu lugar. Pra mim, meu lugar é perto da senhora. Deus me colocou neste lugar e está me fazendo refletir sobre as coisas erradas que fiz. Um abraço do seu filho (Eraldo Rodrigues de Oliveira, 13/12/1984 - 10/02/2002)
Eraldo escreveu a carta para a mãe, Carolina Rodrigues, 39 anos, quando esteve internado no Ciaadi, onde passou o aniversário de 18 anos e o Natal, no fim do ano passado. Morador do bairro União da Vitória 4, zona sul, ele foi apreendido por porte de armas e ficou no Ciaadi 45 dias. No dia 10 de fevereiro, um domingo, por volta das 13 horas, foi morto com cinco tiros.
Carolina lamenta não ter mais para quem cozinhar fígado de frango. Só ele gostava, chora a mãe sobra a única peça de roupa que ela guardou. Ninguém dorme no quarto do filho, que agora está vazio, mas Carolina diz que Eraldo ficou ali, enchendo o cômodo com sua alegria de menino.
Gilliard de Souza Botino (07/08/1982 - 05/01/2002), queria um mundo novo. Na carteira dele, relata a mãe, Claonilde, estava um bilhete: Na mais alta janela de minha casa, com um lenço branco digo adeus. Passo e fico como o universo. A mãe acha que o filho pensava ser invulnerável. Quando os assassinos começaram a atirar, todos que estavam na padaria correram, mas ele ficou, achando que não fosse atingido. Gilliard morreu com sete tiros.
Genivaldo Xavier (09/01/1984 - 18/04/2002), conhecido como Zequinha, também escreveu cartas à irmã Elenice, quando esteve internado no Educandário São Francisco, em Curitiba. Detrás das grades, por mais de um ano, ele sentia saudade da irmã, como do perfume de rosas que longe estão. Sem pai e nem mãe, o menino cresceu ao Deus-dará, e foi assassinado no União da Vitória.
Patrícia da Silva (24/08/1984 - 04/03/2002), foi esfaqueada e teve parte das vísceras arrancadas. Com Aparecida, sua mãe, ficou o desespero, a vontade de voltar atrás para livrar a filha dos perigos. Patrícia teve uma filha, Katleen, com cinco meses. Aparecida disse que irá se dedicar ao pedacinho da filha. Moradora de uma casa humilde no União da Vitória, ela se agarra à neta como a um tesouro: Ela é todo o meu ouro.
André Luiz Martins Pereira (10/04/1983 - 04/03/2002), segundo a irmã. Aparecida, vivia pedindo colo. Minha mãe o colocou no mundo mas quem cuidou fui eu, fala ela sobre seu melhor amigo. Gesseiro, André Luiz, também tinha outras qualidades, conta a mãe, Laudilina. Até pão ele fazia. Para a mãe, André Luiz, que foi barbaramente espancado antes de receber os tiros, agora está bem. Melhor do que eu, que fiquei, chora.
Rodrigo dos Santos Luciano (11/05/1984 - 01/05/2002), ao ser encontrado em um brejo no Assentamento Maracanã, estava semi-encoberto por capim, com borboletas voando ao redor. Com pai e mãe mortos, foi criado pela irmã, Rosângela, 26 anos. Na noite anterior ao crime ele ia chegando em casa e foi recebido à bala pelos assassinos, que estavam à espreita. Ele não se abrigou dentro de casa para nos proteger, chora a irmã, grávida do quarto filho. Ela diz que queria trocar sua vida pela do irmão. Contaram que Rodrigo morreu gritando: Rosângela.
Além desses seis meninos, outros dez até 21 anos foram assassinados este ano em Londrina (veja no quadro). Na idade entre 22 e 24 anos, mais oito jovens foram mortos: Alex Alves Fonseca (23/10/78 - 01/01/02); Ricardo Moreira Lindo (11/01/77 -01/01/02); Alexandre Dela Rosa Ferreira (19/11/79 - 17/01/02); Cláudio Alberto Requia (02/09/78 - 17/01/02); Rogério de Oliveira (12/10/77 - 27/01/02); Fernando Miranda Machado (29/09/78 - 03/03/02); Edson Francisco dos Santos (22/07/78 - 10/03/02); Guilherme Henrique Moreira (22 anos - 13/04/02).





