Passagem do tempo
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de dezembro de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Às vésperas da passagem de ano novamente o mistério do tempo retorna ao centro de minhas reflexões. 2002 já vai se posicionando na nova aurora do calendário cristão e não deixa de ser um número simpático, redondo, torneado, com princípio e fim iguais como repetindo o ritmo binário que nos constrói e nos envolve: olhos, pernas, braços, mãos, orelhas... Homem e mulher, bem e mal, beleza e feiura, doce e amargo, luz e trevas, tristeza e alegria, vida e morte... E a soma do dois mais dois, número quatro da estabilidade, é o que compõe a base das pirâmides egípcias, sentinelas da eternidade; das casas que nos abrigam; dos quadrados e retângulos que povoam o mundo. E lá vamos nós galopando celeremente sobre o bicho tempo de quatro patas de leão, esfinge a nos desafiar para que a decifremos.
Na sua passagem o tempo faz, desfaz, refaz. Marca e aniquila de forma impiedosa varrendo qualquer vestígio de beleza, jogando na vala comum do esquecimento as mais belas memórias. Nada sobrevive a ele. Mas pode ser também misericórdia ao apagar as dores da alma, restabelecer justiça, aprimorar personalidades humanizando-as ou tornando-as mais sábias. Tempo, sucessão de anos, desfile de datas, acontecimentos históricos, episódios particulares.
No tempo de 2001 a humanidade assistiu a uma espantosa e potencializada violência. Não apenas a que advém das catástrofes naturais que reduzem o homem à sua minúscula e insignificante proporção planetárias, mas a violência gerada pelo fanatismo, pela intolerância, pela maldade que dotam o ser humano do gigantismo do mal. Da queda das torres do Word Trade Center em Nova York, em 11 de setembro, quando mais de três mil vidas foram aniquiladas, elevou-se a dor, o luto, a tragédia. Mas também brotou a guerra contra o terrorismo a corrigir o curso dos acontecimentos.
Recordo-me quando a águia ferida levantou vôo e se abateu contra as cavernas do Afeganistão em busca de Osama bin Laden, mentor do crime hediondo. Mas como sempre acontece, da diversidade da vida germinou a contrapartida da desgraça. Por obra dos norte-americanos o povo afegão foi libertado da medieval milícia Taleban e pode de novo assistir televisão, ir ao bar e ao cinema, frequentar o campo de futebol para assistir aos jogos e não mais às execuções. As bombas dos Estados Unidos que caíram nas cavernas de ambiente interno luxuoso, tiveram também o efeito de remover a burca das mulheres afegãs e elas puderam voltar a mostrar nas ruas rostos maquilados, cabelos penteados, unhas feitas nos antes abolidos salões de beleza.
O mundo deu suas voltas na espiral do tempo neste ano de 2001 que ora se finda, transformando aparências e mantendo essências. Palestinos e israelenses continuam a lutar, a Índia e o Paquistão mais uma vez se desentenderam, tragédias coletivas e particulares pavimentaram a estrada do destino humano.
Na América Latina as profundas raízes germinadas em tempos coloniais pelos Estados espanhol e português, os longínquos miasmas do Santo Ofício e a mentalidade do caudilho afloram de quando em vez à superfície fazendo lembrar as palavras de Simón Bolívar: ''A América Latina é para nós ingovernável''. Basta perceber um Fidel Castro, um Hugo Chávez e agora o populista Adolfo Rodríguez Saá que sem dúvida aprofundará a crise da Argentina.
No Brasil, apesar de clamores e choradeiras, uma supersafra, aumento de empregos com carteira assinada, bolsas em alta, dólar em queda, o melhor Natal desde 1994 quando foi implantado o Plano Real, estradas cheias, hotéis lotados, praias entulhadas, passagens esgotadas, demonstram que a propalada crise reside mais no nosso caráter ciclotímico.
Claro que não somos nenhum eldorado. Temos grandes desafios a enfrentar e uma perigosa mentalidade do atraso sempre nos ronda. Mas não há dúvida de que, apesar dos pesares, das greves, da violência urbana, dos contrastes sociais, da corrupção endêmica, este foi um bom ano para o Brasil. O tempo que virá poderemos construí-lo em parte. A outra parte chegará com sua carga de mistério. Mas tomara que a soma de dois mais dois traga mais estabilidade para a humanidade em seu conjunto, apesar de que os homens não parecem aprender com a filha do tempo, a história.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é professora universitária


