PASSAGEM - É preciso aprender a lidar com a morte
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segunda-feira, 01 de junho de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Velório na sala, roupas pretas, crianças em volta. Essa era uma cena comum até algum tempo atrás. Com a modernidade o luto passou a ser vivido de outra maneira. Com isso, as pessoas não vivem mais o processo normal de sofrimento que faz com que a situação seja superada.
Segundo a psicóloga Leda Meda Caetano, especialista em Terapia Familiar, o processo de luto precisa ser vivido, apesar da nossa dificuldade em lidar com a frustração e com o sofrimento.
Por que é tão difícil em nossa sociedade lidarmos com a morte?
Não temos essa aprendizagem. Não estamos preparados para lidar com a perda, porque é muito sofrimento. Precisamos de ajuda para isso.
E que ajuda é esta?
A que vem dos amigos, família, igreja, escolas, enfim, a rede social que pode facilitar a elaboração do luto, que é tão difícil.
E de que forma é essa ajuda? As pessoas não sabem como agir nessas situações, se deixam chorar, se fazem sair de casa...
O choro faz parte da elaboração do luto, que é uma tristeza. O choro expressa essa tristeza. Sair também faz bem. A pessoa precisa de um local onde possa externalizar essa tristeza. Na igreja, na casa de familiares, na escola. Qualquer tipo de ajuda é válida, desde cozinhar, fazer compras de supermercado, orações. Isso vai amenizar o sofrimento.
Essa ajuda da comunidade pode ser feita da mesma forma para várias pessoas, em várias faixas etárias?
Lógico que perder um ente querido em diferentes fases são dores diferentes. Perder uma criança, um adolescente é diferente de perder um idoso. Mas em qualquer momento da vida essa ajuda é bem-vinda. Quando o idoso perde um companheiro com quem viveu por muitos anos, é muito difícil.
Como passar essa perda para uma criança?
Falando a verdade, independentemente da idade. A criança precisa saber da morte, o porquê da morte e presenciar o velório. Precisa se despedir. A despedida do ente querido faz parte da elaboração do luto.
O que deve ser guardado da pessoa que se foi?
Você deve guardar objetos que são importantes. O que foi muito valioso, o que a pessoa gostava muito, porque isso tem um significado. Mas guardar todas as roupas, os sapatos só porque a pessoa usou, não é saudável.
Quanto tempo seria saudável esse luto?
Isso é muito relativo. Depende de cada um, da proximidade, do vínculo, da intensidade. Existe um sofrimento muito intenso no primeiro ano. Até passar por todas as datas: Natal, Ano Novo, aniversário de quem foi, aniversário de quem ficou, todas essas passagens que eram comemoradas juntas são muito sofridas. Depois de um ano começa a repetir as datas e então começa a elaboração do luto.
Temos pais que perderam os filhos e aqueles que não sabem o destino deles. A sensação é a mesma?
É muito pior. Toda vez que você consegue fazer a despedida - mesmo com tristeza, sofrimento - é mais saudável. Os pais que não fazem, não têm certeza de onde o filho está, o sofrimento fica muito maior.
Como a sociedade poderia se preparar melhor para esse luto?
As escolas poderiam trabalhar mais com a questão da perda. A família tem também uma ''obrigação''. A criança precisa conviver com a realidade de que uma pessoa adoeceu, que foi para o hospital, até a morte. A criança vai acostumando com a ideia de que tem um momento que os órgãos vão falir e vai acabar. Mesmo no caso de um acidente. Trabalhando com a realidade, com a verdade, a criança tem muito mais chances de se acostumar com a possibilidade da perda.
A visão geral dos adultos é que ver a pessoa morta, o caixão, é um sofrimento muito grande e por isso fazem essa tentativa de ''poupar'' a criança...
Muitas pessoas me perguntam se devem mostrar, se podem ir no velório, ver o corpo. O medo é nosso, não da criança. Antigamente os velórios eram feitos em casa e a criança convivia com a morte. Hoje a criança tem mais dificuldade de vivenciar isso. O mito da morte é muito forte. Quando não se sabe explicar, prefere-se esconder.
E por que ficamos assim?
Porque é o desconhecido. Não sabemos a sequência disso. Algumas religiões creem, mas aí é uma outra questão, depende da crença de cada um.


