PASSAGEIROS DA HISTÓRIA - AI-5 completa 40 anos
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domingo, 07 de dezembro de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
Conversar com Samuel Yuzuru Baba é travar contato com alguém que conheceu alguns dos mais importantes governantes do País quando eles eram ilustres desconhecidos. Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Paulo Freire, por exemplo, são ativistas que encontrou durante o exílio. Roberto Requião era um jovem que fazia discursos vibrantes em assembléias estudantis.
A trajetória de Baba, porém, difere de quase todos os outros presos políticos da ditatura militar. Após a anistia, permaneceu sem passaporte e não pôde retornar ao País. Voltou apenas em 2006, por meio de um ''milagre'' do qual guarda segredo para não pôr em risco quem lhe ajudou.
As recordações do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que completa 40 anos no próximo sábado, ainda são fortes ao ponto de lhe arrancar lágrimas. A partida para o exílio ocorreu exatamente no prédio onde, até hoje, funciona a FOLHA DE LONDRINA.
Descendente de uma família de japoneses que chegou em 1933 ao norte do Paraná, Baba nasceu e foi criado no Centro de Londrina. Ele é o único sobrevivente entre os estudantes da Universidade de Brasília (UnB) que foram alvo de uma invasão da polícia, em meados de 1968, e que, por suas consequências, foi uma das razões imediatas do AI-5.
Como era a atuação política antes de 1964?
Em todos os lugares, através da União Nacional dos Estudantes (UNE), havia coisas extraordinárias. Foram organizados os Centros Populares de Cultura (CPCs), e daí nasceu, praticamente, a Música Popular Brasileira (MPB), um pouco antes a corrente da bossa nova, o cinema novo, o teatro representado por Carlos Pascoal Magno e Augusto Boal. Ao mesmo tempo, havia uma efervescência na área científica excepcional. Infelizmente, tudo isso foi abafado pelos militares. Nós, que fizemos parte daquela geração privilegiada, não éramos heróis, mas simples passageiros esperando o ônibus da história. Nós embarcamos nele. Aí houve um assalto, digamos, e reagimos. Muitos morreram, outros se feriram e foram perseguidos.
No dia do golpe, havia o pressentimento da dimensão do que viria?
Tínhamos alguns indícios do que se preparava porque a correlação entre o Executivo, o parlamento e o Judiciário era muito desfavorável em relação às forças militares. Na madrugada do primeiro de abril, o Dia da Mentira, me lembro que nos reunimos na sede da União Paranaense dos Estudantes (UPE), em Curitiba, porque houve alerta de movimentos militares no sul de Minas Gerais. Soubemos do golpe por volta de seis horas da manhã. Imediatamente fomos pegos e o presidente da UPE na época, o Ronaldo Botelho, foi preso e levado para o quartel militar.
Como foi o período entre o golpe e o AI-5?
De 1964 a 1968 foi uma ditadura soft, light. Havia torturas, prisões, e outras coisas mais, porém havia um certo clima de tolerância, apesar de tudo. Me lembro que um dirigente comunista, no Recife, foi amarrado pelo pescoço e, nu, exibido ao público, como exemplo de humilhação.
Quantas vezes o senhor foi preso?
Quatro vezes. Eu levei pancadas e sevícias, mas não gosto de falar porque não estamos num concurso de horror. Em Brasília, perto do poder, tive o 'privilégio' de ter um major atrás de mim que me torturava todas as vezes. A última vez ele foi muito 'gentil' e me disse que, com o AI-5, eu não seria mais preso - mas poderia acontecer algo pior. Nossa república foi fechada e eu fugi de Brasília. Anos depois, na Europa, reencontrei esse major. Eu o desculpei, ele aceitou, e pouco tempo depois ele morreu de leucemia, deixando sua fortuna para obras de caridade. Então, apesar de toda a nossa desumanidade, acho que sempre existe uma luzinha que nós poderíamos recuperar para que o ser humano seja ser humano.
Como foi deixar Londrina para o exílio?
Uma profunda tristeza... Não sabia se voltaria vivo ao Brasil.
Você escapou por terra?
Sim. Houve uma situação curiosa e acabei tendo cobertura da própria Polícia Federal (PF). Havia um senhor que morava no prédio da FOLHA (Edifício Bosque), o velho Baldan, que era pai de um alto funcionário da PF. Ele trouxe o filho aqui e disse que eu precisava cair fora do Brasil no próximo feriado e que era para relaxar a fiscalização. Meus pais me levaram até a fronteira e a última imagem que tenho é de meu pai, fora do carro, no meio de uma ventania, desaparecendo enquanto eu ia embora.
E no Chile, com o golpe de Pinochet você voltou a ser preso...
Sim, em uma situação bastante cômica. Eu estava no Hospital da Universidade Católica e alguém me disse que a tropa de repressão estava chegando. Eu tentei pular o muro, um tiro passou de raspão em mim e acabei caindo. Aí, já viu: tiro, sangue, eu caído... Dali dois dias, o apresentador da TV Coroados em Londrina, o Pedro Scucuglia, abriu dizendo que eu tinha falecido. Mas eu sou um cara inusitado: tenho quatro missas de sétimo dia, dois cultos e uma cerimônia ecumênica, e até agora estou vivo.
Como foi a prisão lá?
Me levaram para o Estádio Nacional, que virou campo de concentração. Fui colocado num porão, por uma semana mais ou menos, na escuridão. Sem água para me hidratar, eu comecei a urinar na palma da mão e tomar de volta. Muitas pessoas foram fuziladas no estádio. Eu ouvia as rajadas de metralhadora e os gritos. Depois, com uma inspeção da Cruz Vermelha, a gente voltou a comer e de lá fui para a Europa.


