Passado, presente e futuro nas cinzas
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segunda-feira, 03 de setembro de 2018
Um país ainda em choque tenta digerir o incêndio que consumiu o Museu Nacional, no Rio, no domingo (2). O balanço dos estragos, do que se perdeu, do que pôde ser salvo, do que permite reconstrução levará certo tempo. Nas muita notícias e avaliações trazidas a todo minuto, conclui-se que o prejuízo é incalculável. Não apenas pelo que foi tragado pelas chamas, mas também pelo futuro ali guardado por meio de acervos, como o de história natural da América Latina, ou dos materiais de pesquisa e departamentos de pós-graduação da UFRJ ali instalados. Eram mais de 20 milhões de peças guardadas desde a família real e em seus 200 anos de existência.
O fogo já levou muita história de outros patrimônios públicos no País, como a Cinemateca Brasileira (2016), o Museu da Língua Portuguesa (2015), o Memorial da América Latina (2013), o Teatro Cultura Artística (2008). Porém, ele não é o único algoz. Há muitos outros patrimônios padecendo à espera de recursos para se manterem, para se modernizarem.
O próprio Museu Nacional sofria pelo estado de abandono. O possível risco que ele representava a visitantes ou mesmo ao pessoal que trabalhava ali era visível nas muitas alas já interditadas. Políticas de modernização das estruturas do prédio até existiram, mas pararam no tempo, como a iniciada em 1990, ou na primeira parcela da verba de R$ 21,7 milhões para revitalização do prédio histórico, que seria repassada em outubro próximo pelo BNDES - R$ 3 milhões - e cujo destino seria exatamente a instalação de estruturas de proteção a incêndios.
A tragédia, enfim, é retrato também de um país em crise e que não sabe determinar suas prioridades. Nas previsões orçamentárias, esse tipo de recurso, inclusive, é um dos primeiros a sofrer cortes - na redução de orçamentos destinados à UFRJ, as verbas para o museu também foram penalizadas. Dinheiro esse que pode ter sido levado pelos muitos casos de corrupção que se tornaram conhecidos nos últimos anos, em malas, cuecas e outras tantas formas de desvio.
E Londrina não fica de fora deste triste cenário, como mostram o incêndio do Teatro Ouro Verde e a situação de outros prédios que sofrem com a degradação do tempo e a falta de verba para manutenção, como demonstra reportagem da FOLHA nesta terça (4).
Há falhas dos governos em suas três esferas, mas falha também cada um nós como parte desta sociedade que torce o nariz quando ouve falar de verbas destinadas à cultura. Pois instituiu-se que prioridade é saúde e segurança. Ao contrário, mais que oferecer momentos de entretenimento, a cultura tem importante papel na formação do senso crítico. E é esse o instrumento que torna cada cidadão capaz de contribuir para a construção de um mundo igualitário, justo, seguro, saudável, bem administrado.



