Por cerca de vinte anos a Folha publicou grande parte do que escrevi sobre o sistema econômico-político do Brasil e, principalmente sobre o caos tributário que vivíamos. Lembro-me que em diversas ocasiões alertei sobre o pepino que plantávamos e as consequências que iríamos colher. Dois dias após a decretação do Plano Cruzado, escrevi o artigo ‘‘Os tiros do presidente’’, que em tese afirmava que o presidente havia descarregado a espingarda, acertado muitas consequências e não atingido sequer uma causa - e deu no que deu. Infelizmente, mas infelizmente mesmo estavam corretas as minhas afirmações como também os gritos de alerta da imprensa que só os governos não leram.
Hoje cá estamos tentado consertar os estragos que nós mesmos aprontamos. Nós, porque aceitamos ‘‘pacificamente’’ os desmandos político-administrativos em cujos destroços eu e a Londrimalhas fomos tragados com mais de mil empresas, e muitas outras maiores já se foram ou estão agonizando com seus milhões de empregos. É o querido gigante Brasil que está enfermo porque grande parte dos políticos e administradores o quer assim. Temos um presidente se desgastando no caminho do acerto e ainda uma política, até aqui, de quanto pior melhor. A mina de dinheiro de Brasília secou e os políticos não foram avisados.
O nosso sistema tributário é tão complexo que toda a máquina fiscalizadora não tem sequer condições de fiscalizar um só Estado. Trocando isto em miúdos, pode se afirmar que paga imposto quem quer. O desabafo parece coisa de revoltado, mas vejamos uma declaração do ex-secretário da Receita Federal feita à revista ‘‘Veja’’ de 8 de março de 1995: ‘‘O sistema brasileiro está ficando tão absurdo que eu cheguei a pensar que quem pagava imposto em dia estava almejando a santidade ou estava beirando o nível da idiotia.’’ Quem afirmou isso foi Osires Lopes Filho.
Se estamos abordando o passado e presente, como fica o futuro? Se o Brasil não fizer, a toque de caixa, para ontem mesmo, as reformas básicas, entre elas a tributária e política, entre outras também urgentíssimas, já e já estaremos envolvidos em turbulências que podem até sangrar. Os governos só recolhem regularmente os tributos compulsórios de assalariado, de quem paga luz, telefone. O restante dos tributos fantasiados tem hoje sonegação acima de 60% que só os sábios administradores não sabem.
Na verdade, os grandes sofrimentos deviam me impor silêncio, mas, tenho idade suficiente para pôr a boca no trombone e o farei se preciso, pela convicção de que prender velho não deve ser bom negócio para políticos.
No Brasil, as grandes cabeças pensantes da área econômica falam e escrevem muito sobre macroeconomia, mas como regra geral, não se lembram que economia é mais ou menos como amor - é feita de pequenos fragmentos, de microprodutores e processos miúdos que, somados, geram com os médios e grandes empreendimentos a economia em grande escala.
Hoje o pai incontestável da sonegação é o próprio governo, que na ganância de tributar muito vai criando uma autodefesa na sociedade que é a via da sonegação. Por outro lado, o serviço público não tem oportunidades porque os postos mais importantes são ocupados por políticos, que estão a fim de exercer influência e fazer corrupção.
Não querem que se crie confusão, vão sempre amortecendo, e desse jeito nunca vai se chegar a nada. E é por esta razão que temos que concordar com o que afirmou o ilustre Ruy Barbosa: ‘‘Estamos com vergonha de ser honestos.’’ Hoje quem tenta a retidão de princípios quebra mesmo, principalmente ao enfrentar as porcarias que importamos, em muitos casos irregularmente.
Hoje eu não diria ‘‘acorda Brasil’’, mas ‘‘acordem brasileiros’’!
- EDSON HERINGER é empresário aposentado em Londrina

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