Páscoa e quejandos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de março de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Seria inútil escrever sobre assuntos árduos neste final de semana. Não porque a Páscoa será celebrada, e sim por conta do longo feriado da Semana Santa, que não apenas unificou a Sexta-feira da Paixão ao sábado e ao domingo, mas foi iniciado por muitos logo na segunda-feira.
Soube da folga de proporções semanais quando tentei contato com um senhor que vem fazendo reparos na casa para a qual mudei recentemente, e não o encontrei. Seu ajudante, que entende tão pouco quanto ele de instalações elétricas ou hidráulicas, me disse pelo celular que o chefe havia viajado, e que só voltava na outra segunda-feira. Raciocinei na hora que estes ditos arrumadores de tomadas, chuveiros, vasos sanitários etc. que possuem telefone celular e esticam os feriados, estão melhor de vida do que muita gente que tem nível superior.
Aliás, o tal senhor, enquanto outro dia instalava um interruptor na sala, ao perceber meu trabalho no computador perguntou: - A senhora é escritora? Mergulhada em meus pensamentos, respondi automaticamente: - Sou. E ele, então, me confessou com um olhar confabulador por cima da chave de fenda: - Sabe de uma coisa, eu também ando querendo escrever um livro.
Talvez as pessoas de um modo geral achem chiquérrimo escrever um livro, pois várias já me confidenciaram esse desejo, mas nunca vi nenhuma realizar tal sonho. É possível que algumas até tenham tentado, mas provavelmente desistiram diante do sacrifício e da necessária e férrea força de vontade.
Em todo caso, o instalador de interruptores (e até agora parece que é só isso que ele sabe fazer, uma vez que outros consertos urgentes não foram consumados) certamente terá uma feliz Páscoa. Não no sentido propriamente religioso, mas como lazer desfrutado sabe Deus onde. Terá ele ido passar a semana em Nova York? Ou quem sabe em Cancun, onde com o celular a postos e calções floridos desfrutará de um doce repouso em praias paradisíacas?
É. Não adianta escrever sobre temas filosóficos nesta Páscoa, pois quantos se dedicarão a esse tipo de leitura no feriadão, quando a cidade parece se esvaziar a um número incalculável de gente, que na esteira do Plano Real se põe a se locomover pelas estradas em busca do esperado lazer?
Diante desse fato, pode-se concluir duas coisas: primeiro, que o Plano Real está mesmo dando certo, pois é evidente o aumento do poder aquisitivo do brasileiro, que agora lota hotéis, esgota passagens e entulha as estradas em todos os feriados; segundo, que vai longe o tempo em que a maioria comemorava a Páscoa para além dos ovos de chocolate, e o Brasil era considerado a maior Nação católica do mundo. Mas qual é mesmo o sentido religioso da Páscoa?
Na Aurelhão pode-se ler: 1. Na época pré-mosaica, festa da primavera de pastores nômades. 2 - Festa anual dos hebreus, transformada em memorial de sua saída do Egito. 3. Festa anual dos cristãos, que comemora a ressurreição de Cristo e é celebrada no primeiro domingo depois da lua cheia do equinócio de março.
Portanto, conclui-se que a Páscoa não faz parte apenas do catolicismo, e que se sabe muito pouco acerca das origens, da verdade que se partiu como um espelho cujos fragmentos refletem parcelas da sabedoria original. Daí ter escrito C.W. Leadbeater em A Vida Interior: Quase todas as formas e símbolos da atual religião cristã derivam dos mistérios egípcios. Todo o simbolismo, por exemplo, relacionado com a cruz latina, e com a descida e o sacrifício do Logos, é tirado dos mistérios egípcios.
Mas por que enveredar por tema tão intricado nesse longo feriado de festas e passeios? Quem se interessaria por ele? Quem discutiria um assunto que parece pertencer apenas a iniciados? Prometi a mim mesma no início desse artigo que não cansaria os leitores. Mas cá para nós, tudo está aí para aprendermos sobre o que quisermos. Livros se acumulam nas bibliotecas e nas livrarias à disposição do público, e com a Internet nunca foi tão fácil penetrar em lugares antes distantes. Já os demais meios de comunicação mostram um mundo ao alcance de todos. Entretanto, como no passado, só alguns detêm o conhecimento. Não porque este esteja hoje interditado, mas porque só uns poucos se interessam em realmente aprender.
Mas sobre o que estou escrevendo? Para que penalizar os leitores com a aridez desses pensamentos? Na verdade, gostaria também de poder viajar. Iria para a Ilha da Páscoa olhar os colossos de pedra que intrigam o mundo. Ficar pequena diante deles e comungar com o mistério. Nesta ilha devem haver reminiscências e ressonâncias trazidas pela brisa, e lendo no vento se poderá, quem sabe, contatar com uma antiga cultura cheia de lendas e mitos ancestrais.
Mas como não posso ir para a Ilha da Páscoa, vou me contentar em refletir sobre a Ressurreição. Tenho até a próxima segunda-feira para isso. Até lá, espero que o senhor dos interruptores volte de seu belo passeio e, finalmente, consiga concluir os consertos da casa, tão necessários.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga


