Depois de séculos de ritos coletivos cumpridos por todas as religiões cristãs do mundo, a humanidade teve nesta semana de Páscoa a suspensão de muitos costumes. No catolicismo, foram suspensas cerimônias importantes como o lava pés, tradição que aconteceria na quinta-feira. A procissão da Sexta-Feira Santa, uma das mais solenes de todo o calendário, também não aconteceu e as missas alegres do domingo que marcam a Ressurreição de Cristo só poderão ser assistidas em casa, pela televisão, rádio ou internet.

O isolamento é necessário por causa da pandemia do coronavírus que não permite reuniões públicas e aqueles que têm consciência dos riscos de contágio evitam aglomerações, comuns em cerimônias religiosas.

Mas o que essa Páscoa representa para além da obrigação do isolamento?

De um certo ponto de vista, a reclusão para a oração é um ato implícito no próprio cristianismo. Na Bíblia há uma passagem de Mateus que diz: "... quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está no secreto. Então seu Pai, que vê no secreto, o recompensará."

Esse sentido de intimidade com Deus, que se manifesta na palavra, mas também no silêncio, ganha amplitude nesta Páscoa tão diferente, na qual cada um poderá exercer sua fé em isolamento.

De Jerusalém a pequenas cidades do interior do Brasil, as cerimônias públicas foram suspensas, nisso se incluem desde as missas e cultos até as dramatizações teatrais que acontecem na Sexta-Feira Santa, sempre acompanhadas de um grande público.

Mas com a tecnologia, o sentido comunitário da religião pode ser fortalecido como se no século 21 encontrássemos, definitivamente, uma expressão religiosa na qual o contato físico é suprimido, mas a fé permanece. E esse é o valor intrínseco da própria religião, na condição do "religare"- ligar com firmeza - os homens a Deus.

Neste sábado (11), que antecede o domingo de Páscoa, podemos nos sentir como o Cristo, tantas vezes em isolamento, para refletir sobre as coisas do Pai. Que esse ato nos dê a sensibilidade necessária para compreender um momento tão marcante e tão triste para a humanidade.

Nesta Páscoa - sem o movimento intenso do comércio e o consumismo que tem caraterizado as festas religiosas, independentemente de crenças - um evento trágico, como a pandemia do coronavírus, nos assombra, ao mesmo tempo em que nos reconduz a um recolhimento que pode ser virtual e profundo como a própria fé.

A FOLHA deseja a seus leitores uma Páscoa diferente e plena!

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