Curitiba - Primeira mulher eleita presidente do Iprade (Instituto Paranaense de Direito Eleitoral), em maio de 2019, a advogada Carol Clève tem como mote de gestão o aumento da participação e da visibilidade feminina na política. Em entrevista à FOLHA, ela fala sobre os avanços e retrocessos observados na área, reforça o combate às candidaturas laranja [de fachada, usadas para desviar recursos do fundo eleitoral ou para os partidos cumprirem a cota feminina] e analisa as perspectivas para as eleições municipais de outubro.

"O cenário político do nosso país em relação a esse tema da participação feminina é vergonhoso. Só para você ter uma ideia, o Brasil no ranking dos países com menor participação feminina na política. 'Ganha' da Arábia Saudita, do Irã e do Iraque. São países onde as mulheres conquistaram 'ontem' o direito de sair às ruas, de dirigir, e contam com mais mulheres na política que o Brasil", critica.

Imagem ilustrativa da imagem ‘Partidos precisam de compromisso com a participação feminina’
| Foto: Divulgação

Quais os principais desafios que tem enfrentado no cargo?

Sensibilizar os políticos, sobretudo no interior, sobre esse tema da necessária participação feminina. Eles precisam entender que, para que haja qualidade na democracia, o pressuposto é que nós tenhamos representatividade, que tenhamos igualdade de gênero na esfera política. Quanto mais igualdade nós temos, melhor é a democracia. Confesso que quando eu vou levando essa pauta, que é a menina dos olhos da minha gestão, muitas vezes vem o desconforto em quem está me ouvindo, nos políticos, vereadores, prefeitos. Eles não entendem essa necessidade. Acham que estão fazendo um favor e que a política não é para mulheres. Essa é a maior dificuldade: o convencimento de que não é um favor. As mulheres precisam de espaço e esse espaço é nosso, também nos pertence.

Como vê a questão da participação da mulher nos Parlamentos? Na Assembleia Legislativa do Paraná, por exemplo, são apenas cinco, dentre 54, proporção que se repete nos demais legislativos e executivos pelo País.

O cenário político do nosso país em relação a esse tema da participação feminina é vergonhoso. Só para você ter uma ideia, o Brasil no ranking dos países com menor participação feminina na política. "Ganha" da Arábia Saudita, do Irã e do Iraque. São países onde as mulheres conquistaram "ontem" o direito de sair às ruas, de dirigir, e contam com mais mulheres na política que o Brasil. No contexto da América Latina, perdemos para todos. Por isso que precisamos ser muito contundentes nessa fala e precisamos de mecanismos para corrigir esse prejuízo histórico que tivemos.

É a favor de políticas afirmativas?

Sou a favor sim, para corrigir o prejuízo que tivemos ao longo da história. Não faz tanto tempo assim que a gente pode votar. Temos que pensar em reserva de cadeiras, refletir sobre esses temas. Não dá para esperar. A gente precisa de mulheres para já. Tivemos um grande avanço com as decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), de reserva de uma cota do fundo partidário e do fundo especial de campanha para as mulheres. Isso representou uma considerável melhora na representatividade feminina, mas é preciso mais.

Nos últimos anos passou-se a discutir mais o tema, inclusive com essas propostas de paridade. Nesse governo, houve retrocesso?

Esse tema tem sido uma tendência no mundo inteiro. O mundo inteiro discute hoje e reflete sobre a representatividade feminina na política e em geral nos espaços de poder. É uma das pautas da ONU (Organização das Nações Unidas) e o Poder Judiciário está muito atento, muito sensível ao tema, sobretudo o STF (Supremo Tribunal Federal) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que hoje conta com uma presidente mulher, a ministra Rosa Weber. Ainda que o governo seja machista e o discurso seja carregado de machismo, o que inclusive deixa terreno fértil para as pessoas se sentirem à vontade para falarem absurdos, o Judiciário vem, ainda bem, atuando de maneira a garantir políticas afirmativas. O governo passa e essas políticas devem ficar.

Quais os principais debates que acontecem hoje em torno do tema?

Fala-se cada vez mais da reserva de cadeiras. Eu confesso que achava questionável e tenho sido convencida de que essa seria a única maneira de nós alcançarmos logo a paridade de gênero. Outra ferramenta que eu simpatizo é a lista preordenada dos partidos - um homem, uma mulher, um homem, uma mulher. Em razão das várias pesquisas na ciência política que demonstram que dinheiro tem correlação direta com o sucesso eleitoral, ou seja, quem tem dinheiro garantido para custear a campanha tem mais probabilidade de ter êxito, foi então implementada essa política afirmativa pelo Supremo e pelo TSE, no sentido de garantir uma reserva financeira para as mulheres. Ainda que a passos lentos, tenho de reconhecer que essa medida surtiu resultados, tanto que em 2018, a primeira eleição em que foi implementada, já tivemos um aumento. Também tivemos muitas candidatas a vice-presidente. É um sinal de que, com a reserva financeira, as mulheres estão conseguindo ascender e ter mais destaque. A palavra certa é visibilidade. Uma vez conquistando mais visibilidade e conseguindo um cargo de vice, trazem outras mulheres e vão formando uma base, mostrando seu trabalho e conseguindo cada vez mais destaque positivo.

As candidaturas laranja hoje são um problema?

Realmente são. Mas serão mais do que nunca combatidas com veemência pelos órgãos de controle e de fiscalização. A Justiça Eleitoral está pronta para esse combate, o Ministério Público também. A Justiça Eleitoral está muito contundente no discurso e na fiscalização dessas candidaturas fraudulentas e fictícias. Um exemplo foi a decisão no município de Valença do Piauí (PI), dada pelo TSE, que cassou uma chapa inteira. Depois constatou fraude, que as candidaturas de mulheres eram fictícias. Então, a Justiça Eleitoral não tolerará, e acho que está passando bem o recado. Vai ser uma das principais preocupações e o principal desafio para 2020. Os partidos estão cientes de que precisarão ter compromisso com a participação feminina. Do contrário, a fraude, se houver, será identificada e a chapa será, se provada a fraude, cassada.

Fala-se muito em representatividade, que é algo que importa. Mas também que não basta ser mulher, porque há representantes que não defendem pautas relativas aos direitos humanos de mulheres. O que você pensa a respeito?

Claro que tem muitas mulheres que entram e não necessariamente defendem as pautas femininas. Mas um primeiro passo, que é pressuposto, é trazer mulheres. Não importa o que elas defendam. Nós precisamos de mulheres. Isso já é muito simbólico, ter representantes no Congresso, na administração pública e nos espaços de poder em geral. No meu órgão de classe, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), nunca teve uma presidente mulher. É muito triste para um órgão que se diz defensor do Estado Democrático de Direito. Primeiro passo é ter mulheres. Segundo passo é conscientizar essas mulheres de que precisamos nos apoiar. Quando uma dá um passo, todas vêm junto. Aquela que vai desbravando desbrava não só por ela mesma, mas para todas as outras. Nesse mundo tão masculino, quando a gente consegue ascender a um cargo, conquistar alguma coisa, a gente está trazendo outras mulheres. Quando você abre caminhos, vai neutralizando esse processo.

Os espaços de poder - tanto no aspecto físico, de estrutura, como de organização (horário de reuniões) - são pensados para mulheres?

Os espaços não estão preparados para mulheres. É outro problema a ser enfrentado. É chocante que no Congresso só há pouco tempo abriram um banheiro feminino. Sempre digo: muitas vezes a história de que mulher não gosta de política, não quer entrar para a política, é uma mentira. Ela não tem condições. É um problema de logística, de estrutura. Quem vai ficar com o filho? Como faz? Os homens precisam entender que eles também têm esse papel doméstico. A igualdade começa no espaço privado e esse espaço privado vai ser refletido no espaço público. Muitas vezes somos tiradas do espaço público porque somos sufocadas pelas atividades da vida privada. É uma mudança, eu diria, estrutural, cultural, muito mais profunda e que não é da noite para o dia.

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