Um levantamento feito pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) mostrou um dado preocupante: 72% dos entrevistados - cerca de 1.500 brasileiros - não confiam nos partidos políticos. A desconfiança suscita a pergunta: como é possível reverter este quadro?

Para o filósofo, advogado e professor Delamar José Volpato Dutra, é preciso, antes de qualquer coisa, resgatar a ética, colocando a teoria, de uma vez por todas, em prática. ''Há filosofia bastante para sustentar que a consciência moral paira sobre nós como o céu estrelado sobre nossas cabeças (...). Coisa bem diversa, é claro, é torná-la efetiva''.

Com a proximidade do período eleitoral, o senhor acredita que os valores éticos estão cristalizados entre nossos políticos?
Pode-se dizer que podemos encontrar ambas as posições. Há uma parte dos políticos que preza uma conduta ilibada do ponto de vista moral e há aqueles que têm condutas escusas. O importante, contudo, é que a sociedade cobre tais condutas no ato de votar, não elegendo aqueles que ela considera criticáveis sob esse ponto de vista. Destaca-se também que, sob o ponto de vista jurídico, grande parte das normas de moralidade se encontra positivada no ordenamento jurídico, o que é salutar para o processo de torná-las efetivas.

Uma pesquisa divulgada pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) indica que 72% dos entrevistados não confiam nos partidos políticos...
Uma pesquisa como essa deveria medir, também, quais os critérios que os entrevistados usam para votar em alguém. Por exemplo, será que na deliberação do voto o entrevistado leva em consideração o aspecto que agora critica? Ou seja, o voto é dado para alguém que expressa um caráter virtuoso ou dado para um partido em função da ideologia considerada melhor tendo em vista os interesses privados do eleitor, ou mesmo suas paixões despertadas durante o processo eleitoral?

A população desconhece as noções de ética, inclusive na prática?
Há filosofia bastante para sustentar que a consciência moral paira sobre nós como o céu estrelado sobre nossas cabeças. Ela seria um marco inequívoco. Coisa bem diversa, é claro, é torná-la efetiva. Aristóteles dizia que o homem é bom de um modo só, mas que pode ser mau de muitos modos e Hume afirmava que ''uma coisa é conhecer a virtude e uma outra coisa conformar a vontade a ela''.

Mas esse descompasso não é de causar espanto?
Não, não nos deve causar espanto que haja tal descompasso. Deve-se primar que o comportamento desviante dos padrões de correção moral se reflitam o menos possível no âmbito institucional de nosso país.

Ética e moral caminham juntas? Os dois conceitos são de uma mesma realidade?
Há quem sustente que a ética se refira à ciência que trata do bem ou dos deveres e que a moral seria um sistema de deveres, como por exemplo aquele presente na Bíblia. Contudo, sabidamente, ética advém do termo grego 'ethos' que significa costume, o qual foi traduzido para o latim por 'mores', que também significa costume. Deste ponto de vista, não há diferença entre ambos.

E como combater a conduta antiética nas diversas esferas da sociedade?
Acredito que haja dois meios. Um deles é pela educação formal, o que pode ocorrer com o estudo das humanidades em geral. De fato, nesse sentido, o artigo 36 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, afirma que o currículo do ensino médio observará como diretriz o ''domínio dos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários ao exercício da cidadania''. Um outro caminho a ser mencionado é aquele da aplicação do Direito que, se não pode moralizar a conduta das pessoas, ao menos pode conformá-la aos padrões de correção que a sociedade democrática entende como aplicáveis ao trato da coisa pública.

mockup