Em 22 de junho do já longínquo ano de 1986, uma matéria publicada no O Estado de S. Paulo deixava claras as apreensões com a Assembléia Nacional Constituinte e a situação dos partidos: ‘‘Na Assembléia Nacional Constituinte, corre-se o risco de não-formação de minorias claras e transparentes, ainda que as previsões sejam de ampla vitória da Aliança Democrática. O pior é que sem uma regulamentação partidária eficaz, poderemos chegar a um texto pulverizado e sem organicidade, fruto de intervenções variadas. Uma colcha de retalhos contraditória’’.
Não deu outra. A Constituição de 1988 ficou uma ‘‘colcha de retalhos’’. Mesmo porque, naquela época os partidos já se encontravam totalmente descaracterizados como representantes da opinião pública ou de segmentos sociais. Para além de uma reacomodação, que seria natural, dos políticos antes contidos no bipartidarismo, surgiu um processo acentuado de troca de siglas que sugeria muito mais o oportunismo da caça às vagas nas convenções e o acerto de interesses eminentemente pessoais de poder pelo poder.
De 1986 para cá, o oportunismo partidário, a ausência de qualquer ideologia, princípio ou disciplina por parte dos partidos e de políticos, só fez aumentar. E se nossos partidos não podem deixar de guardar características brasileiras, como o predomínio do jeitinho tão conhecido, de certa forma esses nossos clubes de interesses fazem lembrar o tipo catch-all-parties ou partidos agarra-tudo, surgidos na Europa na década de sessenta. Essas agremiações tinham como objetivo captar o máximo de votos, atraindo eleitores diversos ou até contraditórios, não assumiam uma ideologia bastante precisa e voltavam-se para seus eleitores e não para seus militantes, geralmente dirigidos por elites que não saíram das bases.
Tal evolução, que transformou os partidos de massa europeus em partidos agarra-tudo, na Inglaterra atingiu, inclusive, o Labour Party. Para enfrentar os conservadores, este partido originariamente operário, penetrou nos meios sociais mais diversos e hoje sua clientela eleitoral apresenta caráter heterogêneo, com defecção de parte dos trabalhadores manuais, apoio de uma parte das classes médias e a adesão de crescente fração de quadros intelectuais.
Pois bem, cansados dos desmandos de muitos políticos, algumas pessoas costumam dizer que no Brasil somente o Partido dos Trabalhadores é um partido ideológico, organizado, coerente com o interesse da classe trabalhadora. Não se entra numa explicação mais detalhada sobre que ideologia é esta (sabe-se apenas vagamente que PT é de esquerda) nem que tipo de trabalhadores é representado nesta agremiação (apesar de que para muitos o PT ainda ostenta a pureza das massas operárias).
Entretanto, uma análise mais apurada vai demonstrar que hoje o PT é um partido igual aos outros, um agarra-tudo que no seu desespero para não perder a quarta eleição presidencial busca aliados a torto e a direito e para isso Lula almoça com o antes execrado Orestes Quércia e corre ao encalço do Partido Liberal (coisa estranha porque a simples menção ao termo liberal costumava arrepiar petistas), ligado ao Bispo Edir Macedo.
Quanto à composição social do PT, disse o deputado petista José Genoíno: ‘‘O PT , que virou uma grande instituição, é um partido pluralista e socialmente muito amplo’’. Já na análise do professor e analista político Gaudêncio Torquato, ‘‘O PT, que há muito saiu do ciclo do ABC, seu berço sindicalista, com cobertura intelectual da USP e aproximou-se da classe média num segundo ciclo, quando conheceu a administração pública, está se afastando agora dos sindicalistas e partindo para alianças amplas de uma maneira pragmática que cheira a fisiologismo’’. Mas se o PT é tudo isso, observe-se a precisão do cientista político Leôncio Martins Rodrigues ao se referir ao Partido dos Trabalhadores como ‘‘uma joint venture marxista-cristã, resultante de várias correntes ideológicas, delas a católica e a marxista as mais importantes’’.
Diante desse estranho partido que mais que agarra-tudo parece uma entidade política transgênica (PT + PL = Partido dos Trabalhadores Liberais?) não se pode porém esquecer dos ídolos cultuados pela estrela máxima e eterno candidato Lula da Silva, diante dos quais toda sua aparente moderação cai por terra. Em Porto Alegre, no 2º Fórum Social Mundial, Lula relembrou sua participação na 10ª Reunião do Fórum em São Paulo. Naquela ocasião ele referiu-se ao ditador cubano Fidel Castro como numa prece: ‘‘Embora seu rosto já esteja marcado por rugas, Fidel, sua alma continua limpa porque você nunca traiu os interesses do seu povo’’; ‘‘obrigado, Fidel, obrigado por você continuar existindo’’. Diante disso o que temos? Será um partido ou uma salada russa?
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina

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