Partido é parte, parcela, ensina a ciência política. Assim, os parti dos políticos, no Brasil, represen tam parcelas do pensamento so cial. Sua identi dade e escopo nada mais são do que a extensão da vontade de grupamentos diferenciados da sociedade. Tem o País mais de quatro ou cinco grandes vertentes de pensamento? Provavelmente não. A não ser que os pensamentos em questão traduzam as correntes futebolísticas. Nesse caso, teríamos algo em torno de dez a vinte correntes, de acordo com as preferências em torno dos grandes times. Política e futebol encontram-se apenas em bancos de CPI, tendo, cada sistema, interesses próprios e diferentes.
A premissa, porém, é confrontada pela pletora das legendas minúsculas, que servem basicamente aos interesses momentâneos de políticos aventureiros e oportunistas. Há, no País, mais de 30 pequenos políticos, cujos dirigentes, com raras exceções, são negociantes que se aproveitam da generosidade da lei eleitoral para fazer composições, entrar em alianças (espúrias), aumentando os espaços de TV e rádio para candidatos com ''bala na agulha'', ou seja, com grana para poder comprar a passagem do passe partidário. Trata-se de uma das mais vergonhosas mazelas de nossa desprestigiada arena política. Como se pode constatar, partido político, nesse contexto, não significa parcela de pensamento e sim clube de utilitarismo egocêntrico e mercantilista.
Infelizmente, até para pessoas que se apresentam como éticas, partido também não significa a representação da vontade de uma parcela da população. Basta identificar como figuras de proa se posicionam em relação aos partidos políticos. Veja-se bem o comportamento açodado e matreiro de Itamar Franco. Quer passar pelo PMDB pela quarta vez, se sua banda perder a eleição para a presidência do partido, na convenção do dia 9 de setembro. Ao colocar a decisão de permanecer ou sair do PMDB na esfera de uma convenção, que, democraticamente, elegerá seu presidente, o governador mineiro dá alguns recados: quer servir-se do partido e não servir ao partido; partido é um negócio como outro qualquer; o perfil pessoal prevalece sobre o perfil partidário; o interesse particular é mais importante que o interesse representado pelo interesse coletivo.
Com sua irremovível posição, o governador está querendo dizer: o partido deve vir a mim e não eu ir a ele. Trata-se, na verdade, de uma monumental inversão de valores. Entende-se que o ingresso de uma pessoa na vida partidária se dá por identificação de ideário, de propósitos comuns e de comunhão de ações. Entrar e sair de partido, como se entra e sai de um ônibus, a qualquer hora, em qualquer estação, constitui um execrável exemplo de postura aética, amoral e ilegítima. A ética exige coerência político-partidária e quem vive trocando de partido demonstra que não a tem; moralidade, nesse caso, é sinônimo de respeito à própria essência que explica a natureza dos partidos; e legitimidade é a convivência e a obediência aos preceitos democráticos. Negar tais posições é aceitar o caos da vida partidária.
Se a um partido falta substância doutrinária, é legítimo e ético que seus participantes exerçam a prática democrática de cobrança do ideário; se ao partido carece identidade ideológica, que se faça a crítica. Da mesma forma, se alguém acha que um partido deve sair da base governista e partir para a oposição o que é perfeitamente legítimo e democrático que faça campanha, submetendo-se ao debate interno e ao crivo da decisão eleitoral.
O PMDB, por exemplo, precisa tomar uma posição: continuar a ser um partido da base governista ou seguir a trilha oposicionista. Hoje, é consenso que deve ter candidatura própria e sair do governo. Mas essa decisão deve vir pelo debate e pelo voto. O que não se pode aceitar é que os caminhos de qualquer ente partidário sejam apontados e decididos por fulano, sicrano ou beltrano. Execráveis são, ainda, atitudes que denotam chantagem, jogo de cena, espetacularização da política. O dono de um partido é o povo, mais ninguém.
Se os partidos continuarem a ser tratados como montaria para cavaleiros cavalgarem a seu bel prazer, serão meras caricaturas de si mesmos, desprezados pelos eleitores e afastados das verdadeiras demandas sociais. A democracia é apunhalada toda vez que seus eixos são movidos por siglas de aluguel. Seu sangue também escorre, toda vez que os grandes partidos abandonam o espírito que lhes dá vida para encarnar o corpo interesseiro de perfis que olham apenas para o próprio umbigo.


- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
[email protected]

mockup