Parque Arthur Thomas
Uma das tarefas de um professor e cientista universitário consiste em levantar a voz de alerta sobre as consequências que uma determinada obra pode ter sobre o bem-estar e a qualidade de vida da comunidade onde se encontra inserido. Assim sendo, estamos, hoje, frente a proposta de adequar o Parque Arthur Thomas de Londrina (que possui áreas de floresta naturais) para que sirva também como parque de diversões. Entretanto, esse tipo de serviço é
inteiramente incompatível com as
suas antigas e especiais funções
de reserva natural.
No mundo atual, os parques que contêm florestas naturais representam reservas de formas de vida que são da maior importância porque atuam como ‘‘guardas da saúde do planeta’’ no sentido que mantêm as ‘‘condições de funcionamento’’ da própria vida. Assim, a utilidade das reservas naturais se manifesta na qualidade das águas, a estabilidade do clima, o oxigênio do ar e assim por diante.
Por seu lado, os parques de diversões também têm, é claro, sua importância. O próprio divertimento e a saúde psicológica, para certas pessoas, estariam entre suas utilidades. Mas é preciso ressaltar uma diferença fundamental com relação aos parques naturais: é que os parques de diversões podem ser colocados onde, quando e quantos o homem decidir; enquanto que os parques naturais não. De fato, basta só escolher o local e um empresário com dinheiro e, em poucas semanas ou dias, um parque de diversões estará fornecendo todo o lazer que esperamos dele.
Já as florestas naturais não se instalam em anos. E é porque não é somente uma questão de ‘‘plantar árvores’’; pois elas precisam crescer e a comunidade biológica (que são todos os organismos ali presentes e envolvidos) passar por uma sucessão de transformações, encontrar o compasso dos ciclos climáticos até atingir um chamado ‘‘clímax’’, que é uma espécie de equilíbrio ecológico complexo onde, não só a pequena formiga mas até as bactérias na barriga da pequena formiga, estarão associadas à existência da enorme peroba. E, um estado ecológico saudável como esse pode demorar séculos para ser atingido!
Além disso, florestas naturais no Paraná, como no resto do mundo, são pouquíssimas, pequenas e isoladas. A maioria delas se descaracterizando, suas espécies desaparecendo. Mas, para nós, biólogos, que estudamos as formas de vida, suas funções e relações, esses pequenos redutos de vida natural original são a esperança de que o planeta, doente, recupere sua vitalidade e que nossos filhos possam ainda ter a chance de respirar o ar puro de uma floresta. Lamentavelmente, é só quando as enchentes vêm, e que a chuva não pára mais de cair, levando consigo as nossas estradas, que somos obrigados a parar e pensar na gravidade dos desmatamentos, na importância das nossas áreas naturais.
É nesta óptica que podemos compreender melhor a necessidade de preservar com o maior zelo e carinho o nosso Parque Arthur Thomas. Ele é o último reduto natural da cidade que ainda conserva, heroicamente, espécies de animais raras e ameaçadas. Não se trata então, insisto, de um simples cercado de árvores que vamos deixar ao lado e pronto, pois seu conteúdo é de valor inestimável e deveria ter para os londrinenses o caráter de um santuário. É como se fosse o último retalho de um belo cobertor natural que originalmente abrigava toda a região. E, sinceramente, ele não merece ser profanado com a eletricidade das multidões rodando estrepitosamente em carros de ferro, com explosões de luzes e o histerismo de sua gritaria. Esse seria um erro irreparável. E esta não é apenas uma opinião sentimental.
Quando se fala em preservar a floresta não estamos nos referindo apenas ao desmatamento em si. A questão vai muito além, pois o que seja feito dentro do parque e em torno dele, vai contar, e contar muito! Ao observar a situação das aves e mamíferos que ali se encontram percebemos que as áreas limítrofes do parque deveriam incluir uma zona de isolamento muito maior para que fosse menor a restrição que sofrem as áreas de reprodução, pois estas áreas estão confinadas a um espaço mínimo no interior da mata. Este é o chamado ‘‘efeito de borda’’ (típico das ilhas de floresta). Ocorre que a maioria das espécies precisa de locais sossegados onde possa encontrar refúgios para se reproduzir. Em outras palavras elas também têm, à sua maneira, ‘‘maternidades’’ e ‘‘berçários’’ e, como tais, incompatíveis com trepidações, estalos, luzes estonteantes, gritos, adrenalina e sirenas. Instalar um ‘‘centro de diversões’’ por perto do Parque Arthur Thomas equivale, literalmente, a instalar uma ‘‘casa-do-terror’’ ao lado de um berçário. A conclusão óbvia é que um dos dois deve ir para outro lugar e, como já vimos, não é possível levar a floresta para outro lugar sem que demore pelo menos 100 anos. Tomara
que se chegue a um acordo favorável
logo, para alegria dos nossos jovens.
Entretanto, acredito, ainda, que as áreas já desmatadas do Parque Arthur Thomas possam ser utilizadas para o lazer, mas não qualquer lazer. Elas podem continuar servindo como áreas recreativas no sentido de ser frequentadas por aqueles que gostam de perambular, a passo lento, no ar puro e com o puro canto dos pássaros, para dar um banho de verde aos olhos e ganhar aquela sensação repousante de bem-estar que só este tipo de contato com a Natureza pode dar. Outros tipos de lazer, não. Em nome das espécies que ali habitam, por favor, não. As gerações que estão por vir agradecerão.
Que este seja um protesto em defesa do nosso verde (porque é muito mais que só verde!), antes que seja tarde demais. PS: Em tempo, não sou ecologista de plantão.
- JOSÉ HERNÁN FANDI¥O MARI¥O, docente da Universidade de Londrina

mockup