O que é mesmo comunidade? Há na sociedade e na Igreja uma experiência muito vasta e rica a respeito da vida em comunidade. Uma família, um grupo, uma paróquia, um bairro, uma organização, uma nação cabem dentro do conceito de comunidade. Falamos inclusive da comunidade internacional. Nós aqui vamos nos entreter com a paróquia enquanto comunidade e como a rede de pequenas comunidades.
Lembremo-nos das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), dos círculos bíblicos, dos grupos de reflexão, das capelas que são experiências comunitárias conhecidas e que dão muitos frutos. Todas estas comunidades se focalizam na comunidade divina, a Santíssima Trindade. Quando falamos em comunidade queremos dizer antes de tudo duas coisas: superação do egoísmo, do isolamento, do individualismo egocêntrico; e superação do anonimato, da massificação, da solidão, da multidão. Comunidade é uma experiência de convivência que tem um perfil próprio, uma identidade, uma marca, com elementos básicos e constitutivos.
Vamos aqui apresentar apenas alguns indicadores, ou seja, o mínimo do mínimo para que haja uma comunidade. Eis alguns critérios: vínculo comum, encontro, espírito de pertença, de aliança, de filiação; amizade e convivência; espírito de comunhão, de fraternidade, de abertura e aceitação mútua, portanto, relacionamento interpessoal e acolhimento. Comunidade e família são experiências muito semelhantes. Uma comunidade passa por diferentes etapas de crescimento e amadurecimento. Quando ela alcança uma maior consistência torna-se uma experiência ou lugar de confiança um do outro, de partilha de vida, de perdão e reconciliação, numa palavra, vive-se a comunhão e a unidade na diversidade.
Uma comunidade cristã é uma comunidade de fé, esperança e caridade, fundamentada na Santíssima Trindade que, por sua vez, supõe o batismo. É uma verdadeira "casa e escola da comunhão", uma "igreja doméstica", uma experiência de família, isto é "Igreja-família".
Consideremos alguns critérios básicos que indicam a identidade, o perfil, o rosto de uma comunidade cristã, seus elementos constitutivos.
a) Comunhão (Koinonia). A experiência de comunhão na comunidade cristã tem horizonte muito amplos e precisos a saber: comunhão com Deus, comunhão com os outros, comunhão com os de fora, comunhão com outras comunidades, incluindo a comunhão com outras igrejas e denominações. Isto é possível graças à oração, o perdão, o diálogo, a proximidade.
b) Serviço mútuo (Diaconia). A comunidade cristã enfatiza o outro, o irmão, num espírito de aliança mútua, de promoção do outro. É uma comunidade marcada pela alteridade onde os interesses do outro estão em primeiro lugar.
c) Celebração (Liturgia). A celebração da fé é imprescindível na comunidade cristã. Isto identifica, une e fortalece as pessoas e as comunidades. Por isso, identificamos a comunidade cristã como: casa da palavra, casa do pão, casa da caridade.
d) Testemunho (martírio). O testamento da vida, as boas obras, os gestos de fraternidade, a ação caritativa, social, missionária da comunidade, falam alto. Tornam a comunidade convincente e atraente.
A proposta pastoral da renovação da paróquia como comunidade de comunidades tem dois objetivos: transformar as estruturas tradicionais da paróquia no sentido comunitário como, por exemplo: os conselhos pastorais, a setorização da paróquia, as capelas, a articulação das pastorais entre si e com os movimentos.
O outro objetivo é criar pequenas comunidades, fomentar as Cebs, os grupos de reflexão, os círculos bíblicos, etc. Na verdade, transformar a paróquia tradicional em comunidade é uma tarefa e uma exigência radical que não pode ser apenas um verniz pastoral.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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