Parlamentos passivos e nação perplexa
Ao menos no círculo do poder que compõe o comando da Câmara Alta o Brasil está entregue às mãos de gente da pior qualidade política. Um dos últimos atos emanados da Casa - especificamente do Conselho de Ética - foi sepultar uma representação e três denúncias contra José Sarney. Seduzido pelo discurso que o senador fizera pouco antes, declarando-se vítima, o presidente do Conselho, Paulo Duque (que é do mesmo PMDB do denunciado), alegou não ser possível condenar ''por denúncias baseadas em recortes de jornais''.
Ao deixar o Senado depois do discurso, Sarney foi escoltado - cada um lado a lado - por dois figurantes notórios: Fernando Collor, ex-presidente da República cassado e agora senador; e Renan Calheiros, ex-presidente da Casa e atual líder do PMDB, que conseguira livrar-se de idêntica defenestração da função valendo-se das mesmas graças agora alcançadas ali dentro pelo senador maranhense do Amapá.
Entre outras coisas, Sarney declara sem a mínima desfaçatez que é um produto de montagem a gravação (em poder da Polícia Federal) em que ele negocia a nomeação do namorado da neta dele. Esta é apenas uma amostragem, porque existem ainda as denúncias do envolvimento do velho político (três vezes presidente do Senado) com os atos secretos, nepotismos e mais as irregularidades na fundação que leva seu nome.
Collor, Renan, Lula, defendem Sarney, e depois da absolvição pelo Conselho de Ética o presidente do Senado ganha sobrevida, não se sabendo até que ponto resistirá. É forte o odor de podridão. E também contra o desembargador Dácio Vieira pesa a suspeita de ter agido em situação de impedimento quando proibiu o jornal 'O Estado de S.Paulo' de publicar informações sobre Fernando Sarney (filho do senador) vinculadas ao processo em que ele (o filho) é parte. Porque o desembargador é amigo dele. Na lista dos beneficiados com o ''enterro'' de denúncias, o Conselho de Ética contemplou na presente decisão também Calheiros. A acusação contra ele tinha a ver também com os atos secretos. Tudo tipifica um bem urdido trama ''em família''.
Embora as vozes isoladas do PMDB e de outros partidos, que se insurgem e levantam bandeiras de moralidade, o domínio peemedebista no Senado e na Câmara causa preocupação à nação. Vozes ouvidas do murmúrio popular desenham o quadro sinistro de que o Brasil ''está em mãos de gente perigosa'', referindo-se a esta aliança da maioria interesseira do PMDB com o Governo e à forte blindagem dada a Sarney, mais a presença atuante no processo de figuras como Collor, Renan, Michel Temer. O barco da democracia está fazendo água e os dois parlamentos observam, passivos, enquanto a nação assiste perplexa.





