“Parem de matar as mulheres!” Essa deveria ser a reação de todo cidadão que se diz do bem, ao se deparar com uma notícia como a do assassinato da bailarina Maria Glória Poltronieri Borges, de Maringá. Ela não foi morta por ser membro de uma família, como sugere um cronista. Ela for morta por ser MULHER. Foi estuprada e morta. Ao se remeter a esse caso, a coluna Avenida Paraná da última quinta-feira (6) não faz qualquer menção à palavra feminicídio. Na coluna intitulada “Parem de matar nossas famílias”, a morte da bailarina é associada a outros assassinatos que teriam em comum, de acordo com o colunista, o fato das vítimas pertencerem a uma família. Ora, mas até o bandido mais cruel pertence a uma família.

A coluna cita ainda que o índice de homicídios caiu no Brasil, no último ano, e enaltece o atual governo, mas omite que, no mesmo período, o número de feminicídios aumentou. São mais mulheres assassinadas, são mais vítimas de violência doméstica. O Brasil ocupa o incômodo quinto lugar em assassinato de mulheres. Essa tentativa de camuflar a realidade assombrosa, falando em “assassinato de famílias”, fazendo uma associação simplista entre outros casos, não resiste aos fatos. Basta abrir os jornais. Mulheres são assassinadas todos os dias das formas mais torpes. Há algo muito errado com um país em que os homicídios diminuem, mas os assassinatos de mulheres aumentam. Qualquer pessoa pode perceber isso. Ainda mais um jornalista.

Como explicar que o número de homicídios diminuiu no Brasil e o de feminicídios aumentou? Teria algo a ver com um governo repleto de pessoas e discursos misóginos, que acha que os problemas graves são resolvidos de forma tão simples como vestir meninas de rosa, tirar a educação sexual das escolas e pregar a abstinência sexual? Seria apenas coincidência? Acredito que não. O debate sobre a violência de gênero e a educação sexual nas escolas, coisas que vêm sendo demonizadas pelo atual governo, são caminhos para se combater esses crimes. Precisamos, sim, falar sobre violência de gênero, nas escolas, nos jornais, nas ruas, em qualquer espaço. Precisamos nominar corretamente: é feminicídio que fala. Crime qualificado e com lei própria, desde 2015. Chega de silêncios e omissões.

Pessoas que vivem desdenhando o feminismo, chamando de mimimi, devem ter medo de nomear o feminicídio. Preferem generalizar, falar em morte de “famílias” ou de pessoas, para não admitir que o discurso machista favorece esse cenário trágico. Estão tão apegados às picuinhas ideológicas, aos delírios coletivos como marxismo cultural ou em tirar a esquerda do altar, que se distanciam do que é realmente relevante para a sociedade. Um país em que o número de feminicídios não para de crescer, é um país doente. Todo homem deveria estar envergonhado. Mais do que isso, deveria estar indignado.

O colunista tomou para si a liberdade de alterar os dizeres de um cartaz erguido por uma mulher durante as manifestações de repúdio ao feminicídio, realizadas em decorrência do assassinato da bailarina (foto publicada na edição da última segunda-feira (3) pela Folha de Londrina). Chamou de “pequena”, mas “importante” alteração. O cartaz erguido pela mulher era claro e dizia: “Parem de nos matar”. Mas, o colunista achou que não tinha problema mudar para “nossas famílias”. Não, caro colunista. Você não tem licença para alterar essa frase (até porque o pedido de licença foi apenas retórico). Você não tem direito de tentar esvaziar, silenciar ou deturpar uma causa tão necessária. Leio que o pai de Magó fará da luta contra a violência de gênero a sua missão de vida. Por todas as mulheres brutalmente assassinadas por serem mulheres, por todos os seus familiares, por todas nós, que não estamos seguras em nenhum lugar, é preciso repetir em alto e bom som, seja nas colunas de jornal, nas redes sociais, nas ruas, em casa: parem de nos matar! Parem de matar as mulheres!

Alessandra Pajolla (jornalista e roteirista) - Londrina

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