Na década de 60, era comum uma pichação nos muros das principais capitais do Brasil: ‘‘Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente’’. Lincoln Gordon era o embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Ele foi um dos principais articuladores do golpe que colocou os militares no poder. A indicação de Armínio Fraga para a presidência do Banco Central faz lembrar aqueles tempos, embora neste movimento o presidente Fernando Henrique Cardoso tenha atingido vários objetivos ao mesmo tempo.
Segundo os especialistas, Armínio Fraga é um homem de excepcional experiência no mercado internacional. É conhecido e reconhecido dentro e fora do Brasil. Nos últimos anos trabalhava como administrador de fundos do megaespeculador George Soros. Não é pouco. Trata-se, portanto, de um homem do mercado. Conhece as manhas, as manias e os caminhos para proteger bens e recursos das oscilações das bolsas de valores. E foi diretor do Banco Central ao tempo de Marcílio Marques Moreira.
Sob esse aspecto, a mudança é extremamente positiva. O novo cenário indica que terminou a fase, digamos, acadêmica na economia brasileira. Os meninos vão se recolher às salas de aula. Alguns deles vão encontrar refúgio em confortáveis escritórios nas consultorias especializadas. E o País deverá caminhar para uma situação de alguma tranquilidade. O Brasil deixou, afinal, de ser um laboratório de teses acadêmicas. Doravante os gerentes deverão tomar decisões. Não apenas cogitar dos assuntos.
Tudo isso é muito positivo e demonstra notável modificação de objetivos. No entanto, do ponto de vista político, a situação começa a se tornar mais incômoda. Há uma missão do Fundo Monetário Internacional trabalhando dentro do Ministério da Fazenda, em Brasília. Há altos funcionários do Tesouro dos Estados Unidos dando opiniões abertas sobre a crise nacional. E agora um brasileiro, especializado em operações internacionais, ex-empregado de George Soros, vai assumir a presidência do Banco Central.
Talvez seja o efeito da globalização a súbita e importante desnacionalização do comando da economia brasileira. Os principais atores possuem mais ligações com o exterior que com o próprio País. É uma experiência inédita nos últimos cinquenta anos. O nacionalismo acabou mesmo, por aqui. Já não existem muitos controles nacionais sobre os principais negócios do Estado. Ou, raciocinando em sentido inverso, os economistas brasileiros, que estavam no governo, não foram capazes de colocar o País no rumo certo. Eles produziram o desastre e não encontraram os remédios adequados para solucionar a crise.
Nos anos 60, soluções como essa produziriam uma tempestade política devastadora. Nos anos 90, ao que parece, não acontece nada de novo sob o sol do trópico. A sociedade está cansada das soluções incompletas, dos confiscos, dos arrochos, da falta de planejamento e de administrações que não administram. Quer apenas expectativas.
A profunda modificação na política econômica e a queda dos principais personagens do antigo regime não causaram nenhuma comoção. O povo não saiu às ruas para brigar por quem provocou a crise. Eles, afinal, criaram o espaço para que o socorro viesse do exterior. E terminaram por colocar os gringos no poder. Sem que houvesse nenhuma solicitação nesse sentido. Deve ser consequência daquilo que os franceses chamam de mal de fim de século.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília

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