Parcerias estratégicas
Miguel Ignatios
A política externa brasileira vem ao longo dos últimos cinquenta anos alternando fases de ufanismo inconsequente com outras de complexo de inferioridade. Na verdade, elas podem ser vistas como duas faces de uma mesma moeda. De um lado, a idéia de que todas as soluções virão necessariamente de fora e, de outro, a sensação de que tudo o que se tentar aqui dará errado. Precisamos nos livrar de uma vez por todas dessa herança incômoda, que, talvez, tenha suas origens no Brasil colônia.
A atitude ciclotímica que vai do ufanismo ao e complexo de inferioridade, cultivada pelas nossas elites, e com alguma penetração nas camadas médias da população, precisa ser trocada pela percepção madura de que o País tem um enorme potencial de liderança a ser exercida por meio de parcerias estratégicas com diversas outras nações e regiões do mundo. De fato, o Brasil é hoje o único dentre os grandes países do mundo (Rússia, China, Índia, Canadá e Austrália, além, é claro, dos Estados Unidos) que tem acesso relativamente fácil aos cinco continentes.
Comecemos pelas Américas. Resolvidos os problemas que emperravam o crescimento do Mercosul, a diplomacia brasileira já deveria estar construindo as ‘‘pontes’’ para integrar o subcontinente via países andinos e depois por meio de parcerias com a América Central e o Caribe. A recente visita do presidente FHC à Costa Rica foi o primeiro passo em tal direção. A última etapa de tal processo seria a adesão das comunidades regionais latino-americanas ao Nafta (Estados Unidos, Canadá e México) para a posterior formação da Alca.
Em relação à União Européia, as possibilidades de parcerias são mais fáceis ainda. O Brasil pode negociar com Portugal, transformando-o no principal reexportador de nossas mercadorias para a Europa; ou, em bloco, via Mercosul. Uma coisa não exclui a outra. Os possíveis acordos com parceiros lusitanos e europeus serviriam para dar economia de escala e competitividade às exportações de nossos manufaturados e também para atrair mais investimentos diretos para cá.
É na África, mais precisamente na parte meridional do continente, que residem as melhores chances de o Brasil e as nações daquela região acertarem acordos comerciais e de investimentos proveitosos para todos. Para isso, a diplomacia brasileira teria de empreender, juntamente com Portugal, e com a ajuda imprescindível do ex-presidente sul-africano, Nelson Mandela, um esforço para acabar de vez com a guerra civil em Angola. Conseguido tal objetivo, poder-se-ia, em seguida, elaborar um programa de reconstrução para as economias angolana e de Moçambique.
Como o leitor sabe, os países do sul da África desenvolvem esforços para a criação de um mercado comum regional, nos moldes do Mercosul. A experiência acumulada por brasileiros e seus parceiros argentinos, paraguaios e uruguaios poderia apressar o surgimento do mercado regional sul-africano. Um acordo entre essas duas comunidades (a da América do Sul e a da África do Sul) transformaria em pouco tempo esses dois espaços numa espécie de Meca dos países emergentes. O potencial de trocas comerciais deles com o restante do mundo e de investimentos é incalculável.
Quanto à Ásia e à Oceania, o nascimento de Timor como nação independente da Indonésia não poderia ter ocorrido em melhor hora. Não será difícil, após a sua reconstrução, transformar aquele pequeno país num ponto de apoio logístico para a distribuição de commodities (soja, café e açúcar, dentre outras), manufaturados e serviços de engenharia tropical para o Sudeste Asiático, a região dos ‘‘tigres’’, China, Índia, Austrália e Nova Zelândia.
O esforço diplomático do Brasil para a realização dessas parcerias estratégicas, sem dúvida, levará um bom tempo para dar os primeiros resultados. Mas quando eles vierem, a meta de exportar US$ 100 bilhões, prevista para 2002, parecerá insignificante.
O Brasil precisa tomar consciência de que é o único país tropical do mundo que detém tecnologia de engenharia e de serviços compatível com as características ambientais dessas partes do planeta. E isso não é pouco. Apesar disso, as trocas comerciais brasileiras com o resto do mundo mal chegam a representar 1% do total do comércio mundial. Não é difícil ao longo de uma década, por exemplo, duplicar ou até mesmo triplicar tal percentual. Basta fazer um bom trabalho de marketing.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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