Paranóia e poder
Paranóia e poder
Maria Lucia Victor Barbosa
Há algum tempo li um livro notável, Massa e Poder, de Elias Canetti. Autor de várias obras, entre elas, Auto de Fé, prêmio Nobel de literatura de 1981, Canetti me encantou com sua visão sui generis, com sua capacidade ímpar de entrosar psicologia, sociologia e antropologia, com sua habilidade de me introduzir aos mistérios de povos primitivos ou de me fazer circular pelas entranhas do poder.
Recentemente lembrei-me desta obra ao ler sobre alguns episódios protagonizados não pelo rei Glass, do Gabão, ou pelo sultão Muhammad Tughlak, de Delhi conforme narrativas de Canetti, mas encenados por políticos brasileiros. Entre os mais marcantes desses acontecimentos está o corrido em Minas Gerais, quando o governador Itamar Franco previu a invasão do seu Estado pelas Forças Armadas a partir de São Paulo, em manobra supostamente planejada pelo governo federal.
Tal qual Napoleão de Juiz de Fora, Itamar vem apelando para um marketing guerreiro e encantando com isto, ao que parece, meus conterrâneos que o elegeram, o que me leva a sussurrar tristemente o verso de Carlos Drumond de Andrade: Minas não há mais.
Também a greve dos professores mineiros, ameaçados por Itamar Franco de demissão, o que ocasionou o fim da lua-de- mel entre o PT e o governador, foi considerada por este uma conspiração urdida na calada da noite, nos porões do Palácio do Planalto.
Outras conjuras Itamar imaginou, todas oriundas do presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi assim, por exemplo, quando em outubro do ano passado, ele aventou um curioso plano de ação que consistia na disposição de utilizar armas contra o governo federal, naturalmente se necessário. Nesse sentido, determinou manobras da PM na região de Furnas, e esse suposto resistir bravamente, encheu, como era de se esperar, os mineiros de brios e eflúvios heróicos.
Neste ponto fico a pensar o quanto os homens sentem falta de uma guerra. Se não conseguem deflagrá-la, apelam para outras modalidades de conflito através de torcidas de futebol que se engalfinham às vezes até a morte, ou de embates políticos que variam das bravatas aos vitupérios. Isto porque o ser humano, o animal mais contraditório do Planeta, precisa se sentir seguro e busca tranquilidade ao mesmo tempo em que persegue a dificuldade e ama o perigo. E quando situações difíceis e perigosas tardam ou não acontecem, ele, sem a menor necessidade aparente de sair dos seus confortos, escala montanhas geladas, atravessa desertos inóspitos, mete-se em trilhas lamacentas a bordo de veículos desengonçados, e outras coisas do gênero.
Simultaneamente, as patriotadas estaduais de Itamar Franco empolgam porque acentuam o etnocentrismo, conceito que significa a atribuição de melhor, mais perfeito, espetacular, único verdadeiro, e todos os mais elevados qualificativos que cada grupo social, partido político, agrupamento religioso e país, atribuem-se em detrimento dos demais. Através do etnocentrismo, pode-se entender melhor o nacionalismo, o xenofobismo, o ufanismo, os inúmeros preconceitos, a intolerância para com o que é diferente, a dupla moral etc.
Desse modo, o etnocentrismo, se bem utilizado por políticos, lhes traz grandes vantagens, pois acentua o sentimento de grupo facilitando a coesão interna e, assim, o perfilamento em torno de um líder com o qual o grupo se identifica, pois aquele foi capaz de conferir aos seus comandados o sentimento de superioridade. No caso de Itamar Franco, além de aumentos de salários para certas categorias, ele inflou o ego mineiro à custa de algumas pantomimas heróicas. Desse modo, Itamar pensou obter suas vitórias sobre o presidente da República que, no seu entender, é um usurpador do ocasional poder que teve ou que poderia vir a ter.
Justamente essa mania de grandeza e perseguição, tão evidente no governador de Minas Gerais, encaixa-se na análise de Elias Canetti. Este demonstra que paranóicos e poderosos têm algo em comum, e afirma: A paranóia é, no sentido literal da palavra, uma enfermidade do poder.
Canetti ilustra suas teses com referência ao tema, com o caso Schreber, um juiz e antigo presidente do senado de Dresden. Schreber, que sofria de paranóia, chegou a escrever um livro, Memórias de um Neuropa, depois de ter estado durante sete anos em várias clínicas e, na obra, relata o sistema do seu delírio.
Segundo Canetti, Schreber sentia-se ameaçado por conspirações e, assim, imaginava que seu psiquiatra, o Dr. Flechsig, havia conspirado com Deus para sequestrar sua alma. Conclui então Elias Canetti, sobre o significado que as conspirações têm para o paranóico: As conspirações ou conjurações estão para ele na ordem do dia. O paranóico se sente cercado.
Schreber, que concebia também idéias de grandeza, escreveu no seu livro: Tudo que ocorre refere-se a mim. Eu me converti para Deus no homem absoluto ou no único homem, em torno do qual tudo gira.
Dentro deste aspecto pode-se entender melhor por que desde os tempos mais antigos, governantes estavam profundamente vinculados à religião, sendo considerados deuses ou representantes de Deus na Terra, como nas teocracias da antiguidade. E se no passado tal coisa era mais evidente, hoje não deixa de existir.
Exemplo disto foi a faixa que apareceu em defesa do prefeito cassado de Londrina, Antonio Belinati, na qual um salmo da Bíblia foi transcrito com referência aos pecados contra mim cometidos e também com uma alusão ao meu PAI. No caso do Pai, ficou dúbio se este seria o Criador ou o Pronto Atendimento Infantil (PAI), o posto de saúde que foi o estopim da cassação do prefeito. Em todo caso, a conexão entre a divindade e o político era inequívoca na grande faixa preta de letras brancas.
Como escreveu Canetti, não se pode rechaçar a suposição de que por trás de cada paranóia, como por trás de cada poder existe a mesma tendência profunda: o desejo de eliminar os demais do caminho para ser o único.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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