No início de agosto, quando embarcou com destino ao Timor Leste, o assessor de imprensa do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, Marden Machado, não podia imaginar os momentos de tensão e medo que ele e todo o grupo da ONU passariam. Foram semanas de trabalho árduo para ensinar aos timorenses o processo eleitoral e convencê-los de que a eleição transcorreria sem a intervenção da Indonésia. Tudo o que faziam era fiscalizado a longa distância pelo governo indonésio. Duas horas antes da divulgação do resultado do plebiscito, com a vitória esmagadora (78,5% dos votos) a favor da independência, o grupo de observadores da ONU e os oficiais eleitorais embarcou às pressas para a Austrália, por questão de segurança, escapando do massacre que se desencadeou nos dias seguintes. Marden Machado desembarcou no aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais, na noite de sábado, onde era aguardado pela família e amigos. Chegou com a certeza de que contribuiu para o processo de libertação do Timor Leste. Aos 36 anos, e com a experiência de ter participado como observador da ONU das eleições no Camboja (1993) e em Moçambique (95), o assessor do TRE admite que a experiência vivida nas últimas semanas foi a mais forte que já teve. Cinéfilo, Marden Machado começará nos próximos dias a escrever um roteiro para um filme sobre o Timor Leste. Será o quarto roteiro de quem é fissurado por cinema a ponto de assistir 62 vezes ao filme Blade Runner e de se considerar um trekker (fanático pela série Jornada nas Estrelas). Ainda no aeroporto, Machado concedeu a seguinte entrevista à Folha:

Paranaense enfrenta o drama do Timor
Carmem Murara
De Curitiba
Folha - Como foi o período eleitoral no Timor?
Marden Machado - Durante os dois meses da ‘‘fase um’’, que foi o registro de eleitores e educação cívica, houve muita intimidação para que os timorenses votassem pela autonomia, isto é, a favor da integração da ilha à Indonésia.
Folha - Vocês deixaram o País, rapidamente, assim que terminou a contagem dos votos do plesbiscito. Logo em seguida, o prédio da ONU foi invadido. Como isso ocorreu?
Machado - Eu fiquei na turma de contagem. Quando foi na sexta-feira à noite, eles distribuíram nossos passaportes e deram uma hora e meia para que pegássemos nossa bagagem. A apuração terminou às 5h30 da manhã de sábado e nós saímos direto do centro de contagem para o aeroporto. Fomos mandados para a Austrália por questão de segurança.
Folha - Quem distribui os passaportes?
Machado - A própria ONU. Eles temiam que pudesse haver violência e pressão quando fosse divulgado o resultado. Por precaução, toda a equipe de contagem - éramos 64 - foi direto para o aeroporto. Quando chegamos na Austrália, concidiu com a divulgação do resultado e aí a violência começou.
Folha - Os momentos que antecederam a saída de vocês foram os mais tensos?
Kraw PenasMachado - Sim, mas durante todo o tempo de contagem dos votos nós ouvíamos tiros. O pessoal das milícias fazia carreatas pela cidade para assustar os moradores. Foi um momento de muita tensão.
Folha - Dava para sentir que haveria problema caso o Timor decidisse se separar da Indonésia?
Machado - Sim. O responsável pela segurança, que seria a polícia da Indonésia, em momento algum agiu de maneira mais drástica para tomar as armas e coibir a violência. O resultado só poderia ser a violência.
Folha - Como o senhor avalia o governo da Indonésia em todo este processo?
Machado - Dava para sentir que o governo indonésio estava dividido. Tem o lado do presidente Habbibe que diz querer controlar tudo, mas há uma tensão com os militares. Na verdade, ele não tem tanta força assim para impôr qualquer tipo de ação mais enérgica no País.
Folha - Foi possível sentir no Timor que o governo da Indonésia fechou os olhos para que as milicias possam agir como queiram contra os timorenses?
Machado - Aí tem um pouco do orgulho indonésio. Eles acham que podem dominar sozinhos a situação. Há muita conversa, muita reunião, mas pouca coisa de prático.
Folha - E a pressão internacional. De que maneira ela ajudará neste processo?
Machado - A pressão está cada vez maior, principalmente, na Austrália, onde a movimetnação para envio de tropas de paz e início de missão de paz efetiva é muito forte.
Folha - O senhor acabou ficando um período na Austrália. Como tem sido a reação australiana frente aos conflitos no Timor?
Machado - Na Austrália tem manifestação diária em todas as grandes cidades, como Melbourne, Camberra, Darwin e Sidney.
Folha - Todos os brasileiros já deixaram o Timor?
Machado - Eu sou o último brasileiro que chegou. Os brasileiros que ficaram lá são aqueles que foram trabalhar como militares, chamados de militar de ligação. Estes ainda estão lá.
Folha - Quantos brasileiros acompanharam o processo de organização do plebiscito?
Machado - Era um grupo de 12 brasileiros e todos já retornaram.
Folha - Qual a experiência que o senhor traz na bagagem e qual a impressão sobre o povo do Timor?
Machado - O povo do Timor é um povo extremamente hospitaleiro e muito amigo. Eles adoram o Brasil. E, infelizmente, até o momento a gente não viu uma ação mais enérgica do Brasil para ajudar os timorenses.
Folha - Faltou uma ação mais contundente por parte do governo brasileiro?
Machado - Exato. Eu acho que nós temos a mesma herança de língua. Ambos os países foram colonizados por Portugal. A geração que nasceu após 1975, quando Indonésia invadiu o país, não fala mais português, mas quem tem mais de 35 anos, em Timor, fala e gosta de falar português. Gostam de cantar músicas portuguesas e brasileiras. Cantam, por exemplo, Leandro e Leonardo e Roberto Carlos. O futebol brasileiro é adorado. Nos jogos do Brasil, é comum ver timorenses com a camiseta da seleção brasileira. A Copa América, por exemplo, eu acompanhei com eles.
Folha - A maior crítica sua é a posição que o Brasil adotou?
Machado - Por ser um país de mesma origem poderia ser mais atuante. O que a gente vê lá é que Austrália e Portugal são bastante atuantes. O timorense esperava mais. Dissemos aos timorenses que acontecesse o que acontecesse, os olhos do mundo estariam fixados no Timor. Mas, infelizmente, ficaram só olhando.
Folha - - O que fazer neste momento para reestabelecer a paz no Timor?
Machado - A situação atual é de pura anarquia, portanto tem de ser enviada uma tropa de paz o mais rápido possível. Uma tropa para desarmar a milícia e acabar com o caos que se estabeleceu.
Folha - A ONU tem sido muito criticada pela postura de apatia que tomou diante dos conflitos.
Machado - O problema é que a ONU assinou com a Indonésia e Portugal um acordo que limita muito. Precisa que a Indonésia ceda para que a ONU possa agir. O acordo deixou a ONU amarrada, inclusive, no aspecto de proteção. Todos os policiais da ONU trabalhavam desarmados, pois isso constava do acordo. A segurança era e é responsabilidade apenas da Indonésia.
Folha - Jornais de todo o mundo criticam a postura dos governos, que estariam ignorando o Timor pelo fato de ele ser um pequeno país com uma fraca economia.
Machado - Até em termos econômicos, muitos países, entre eles os Estados Unidos, relutam em tomar firme posição, pois teriam que entrar em conflito com a Indonésia que é um mercado muito maior. Mas a pressão está cada vez maior e o número de mortos só tem aumentado. Logo, algo terá que ser feito.
Folha - Qual a sensação que fica depois de todo o trabalho feito?
Machado - A primeira etapa do trabalho, que consistia do registro, da educação cívica da eleição e da contagem foi concluída com sucesso. A quase totalidade da população (78,5%) quer a independência do país. O comparecimento às urnas talvez tenha sido o maior da história do Timor, pois 98,6% votaram. Isso é prova que o povo quer a independência mesmo.
Folha - Não houve uma coação da Indonésia para que a população votasse contra a independência?
Machado - - Eles (indonésios) espalhavam boatos no período da campanha de que se a independência ganhasse, o país seria novamente colonizado pela Austrália ou por Portugal. Mas o que a gente escutava muito dos timorenses é que eles preferiam qualquer outro país colonizando o Timor, menos a Indonésia. Eles queriam a Indonésia fora.
Folha - Quem podia votar no Timor?
Machado - Podia votar pessoas nascidas em Timor, filhos de timorenses ou casados com timorenses.
Folha - O que o senhor sentiu do povo, quando os timorenses perceberam que o clima estava ficando mais tenso?
Machado - Durante todo o trabalho de registro e educação cívica, o povo assumiu uma postura bem pacata. Ninguém demonstrava em público a sua intenção, justamente por conta do período de intimidação e pressão das milícias. Mas o resultado quando saiu confirmou a expectativa.
Folha - Houve pressão do governo da Indonésia durante os trabalhados de preparação da eleição?
Machado - Eu fui primeiro para Dili (capital do Timor) e depois fui para um distrito há 30 quilômetros, Liquiça. Esse local foi o primeiro a sofrer pressão da milícia. O primeiro grupo de oficiais eleitorais que foi para lá acabou sendo evacuado. Eu participei do segundo grupo. Tentamos nos mudar para lá, mas fomos ameaçados. Disseram que se nos mudássemos não teríamos qualquer segurança. Então, durante três semanas, nós negociamos junto com as lideranças das milícias e o prefeito a nossa mudança para lá. Nós nos mudamos no último dia de registro e ficamos lá até a apuração.
Folha - Este era um momento de tensão?
Machado - Muito. Tanto que, para nossa segurança, nós alugamos uma casa próximo da base dos policiais civis e ficávamos todos juntos. Éramos um grupo de 20 pessoas. Era uma casa que, estrategicamente, nos garantia segurança. Caso sofressemos pressão, teríamos como fugir pelos fundos da casa. Cada grupo de dois oficiais tinha um carro. Sempre andávamos em comboio. Nos 21 dias antes da nossa mudança, nós saíamos de Dili às 5 horas da manhã, em comboio, até Liquiça. Ficávamos lá até o final da tarde e voltávamos em comboio. Teve um aspecto positivo: ficamos todos muito amigos e unidos. Só podíamos sair com escolta.
Folha - Como era a rotina?
Machado - Nós acordávamos às 5 horas da manhã. Começávamos a trabalhar às 6 horas. Trabalhávamos o dia inteiro e quando voltávamos para casa não podíamos sair. Tivemos que ser criativos naquele espaço. Éramos 20 pessoas de várias nacionalidades, mais três militares, mais nove intérpretes locais. Cantávamos música, jogávamos xadrez e contávamos piadas.
Folha - E a comida?
Machado - Fizemos uma dieta à base de arroz, peixe e banana. Perdi 10 quilos.
Folha - A maioria das pessoas que estava com o senhor era brasileira?
Machado - Não, eu era o único brasileiro. Havia outros 12 brasileiros, mas que ficaram espalhados pelo país.
Folha - Quando o senhor sentiu mais medo e mais insegurança?
Machado - Eu senti maior tensão quando iniciamos a educação cívica. Até o momento do registro, eles (indonésios) faziam muita pregação de que haveria duas cédulas, duas urnas, duas filas: uma para pró-independência e outra para pró-autonomia. O povo estava confuso. Quando fizemos a educação cívica e fomos às casas das pessoas, reunindo a comunidade e dizendo a eles que seria uma única cédula, que o voto seria secreto e que a apuração seria centralizada em Dili, sentimos que havia maior pressão.
Folha - Vocês acabaram garantindo aos timorenses a liberdade do voto?
Machado - A gente sentiu a confiança deles nesse período. Tanto que o comparecimento foi total no dia da eleição.
Folha - Como era feita a pressão contra os timorenses?
Machado - Para se ter uma idéia, algumas pessoas usavam camisetas que traziam a frase: ‘‘Se a autonomia (integrar-se à Indonésia) ganhar, haverá pouco sangue. Se a independência ganhar haverá rios de sangue’’.
Folha - Qual era o papel das guerrilhas?
Machado - Muitos refugiados subiam para as montanhas para ficar com as guerrilhas. Mas o pessoal da resistência estava concentrada em várias regiões do País.
Folha - Como foi o período em que o senhor ficou na Austrália?
Machado - Nós víamos pela televisão muito de nossos amigos timorenses, que trabalhavam como intérpretes ou nos registros, sendo presos ou confinados no prédio da ONU. Um dos policiais civis da minha região foi baleado no estômago. Tudo isso aconteceu a partir do momento do anúncio do resultado.
Folha - Esta é sua terceira missão em eleições internacionais. Você já esteve no Camboja e em Moçambique. Essa foi a mais tensa e complicada?
Machado - Em todos os aspectos esta foi a melhor, pois participei de todo o processo. Desde o registro dos eleitores até a votação e apuração. Em termos de trabalho de grupo, foi o mais produtivo. Talvez pela tensão e clima no país o grupo ficou mais unidos e resolvia qualquer dificuldade.
Folha - Um dos seus hobbies preferidos é o cinema? O Timor foi para o senhor como um filme de guerra, de terror?
Machado - A missão vai dar um ótimo roteiro. Vou escrever um roteiro sobre o Timor. Será meu quarto roteiro.
Folha - Vai voltar lá para filmar?
Machado - Não. Vou só escrever o roteiro.
Folha - Qual será o nome do filme e qual o enfoque dele?
Machado - O nome ainda não sei. Mas ele vai tratar de amizade, de trabalho coletivo e de tensão de trabalho.
Folha - De tudo o que vocês passaram, o que ficou como lição?
Machado - A gente ajudou um país a encontrar o caminho da independência que eles buscavam há 25 anos. Em 1974, Portugal deu a independência e saiu. Três grupos passaram a brigar e houve uma guerra civil. A Indonésia interveio, primeiro como ajudante do país. Desde 1975, eles vivem sobre o comando da Indonésia.
Folha - Depois da experiência do Timor, o senhor pretende participar de outras missões internacionais?
Machado - Por enquanto, quero descansar um pouco. Mas já fui convidado para ir acompanhar o processo de eleição em Kosovo. Queriam que eu emendasse e fosse direto para lá. Disse que de imediato não posso ir, mas que aceitaria ir para o trabalho eleitoral que está previsto para o final do ano 2000.

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