Paraná não consegue ensinar alunos
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sábado, 14 de setembro de 2002
Maigue Gueths<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Professores da rede estadual e do município de Curitiba afirmam que os sistemas de ensino adotados pelo governo do Estado e prefeitura não estão conseguindo ensinar as crianças que cursam o Ensino Fundamental - de 1 à 8série - em escolas públicas.
O problema estaria na adoção do Sistema Ciclado nas escolas municipais - responsáveis poelo ensino de 1 a 4 séries -, que prevê a não reprovação dos alunos. Muitas crianças estariam passando de ano sem terem aprendido o conteúdo previsto. A situação se agrava quando chegam à 5 série, na rede estadual. Sem a base de conhecimentos necessária, muitos não conseguem acompanhar as aulas. Como resultado, acabam reprovando ou abandonando a escola.
''Em todas as escolas há alunos que chegam à 4 série analfabetos. Não conseguem escrever uma frase, não conseguem interpretar um texto, não sabem fazer cálculos básicos de matemática'', diz a a especialista em educação, Gisele Moura Schnorr, da Secretaria de Assuntos Educacionais, órgão vinculado ao Sindicato dos Professores da Rede Estadual (APP-Sindicato). A bola de neve, segundo os professores, continua na segunda etapa do Ensino Fundamental. A crítica, aqui, dirige-se ao programa de Correção de Fluxo, implantado a partir de 1997 pelo governo do Estado.
Com a finalidade de adequar alunos que estavam em séries inadequadas para sua idade, entre 1997 e o ano passado, cerca de 280 mil alunos passaram pelo programa. ''É um absurdo, eles colocam os alunos com mais de 14 anos nessas turmas, passam para o ensino médio, mas eles também não aprendem e não conseguem acompanhar o estudo depois'', diz Gisele. Para ela, o Estado e municípios deveriam ter consciência de que quem tem problema de aprendizagem necessita de atendimento pedagógico diferenciado, que garanta o direito ao conhecimento. ''É um processo perverso de exclusão, porque no final o aluno também sai da escola, e sem os conhecimentos vai procurar outras alternativas'', completa.
''A maior causa da evasão escolar na 5, 6 e 7 séries é porque as crianças não conseguem seguir as aulas'', afirma o presidente em exercício do Sindicato dos Professoers da Rede Estadual (APP-Sindicato), José Lemos. A denúncia é confirmada pelo promotor Murilo José Digiácomo do 2º Ofício da 1 Vara da Infância e do Adolescente de Curitiba. Segundo ele, a maioria dos adolescentes encaminhada ao Centro de Integração e Apoio ao Adolescente (Ciad) - órgão de atendimento ao menor infrator - está fora da escola. ''Se você for ver, quem abandonou a escola na 5 série é porque não conseguiu acompanhar'', diz.
O problema não é o sistema Ciclado de Ensino. A maioria dos professores é favorável ao programa. ''O problema é a falta de condições para que o aprendizado dê certo'', diz, lembrando que os ciclos funcionam muito bem em outros países, onde o número de alunos por turma é menor, e há atendimento de contraturno, ou seja, aulas de reforço em horário fora do período escolar que a criança estuda.
O Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac) concorda com a avaliação da APP. A rejeição ao sistema, segundo o Sismmac, deve-se principalmente à falta de pessoal necessário para acompanhar os alunos com dificuldades no ensino.


