Paraná ingressa em novo ciclo
Walmor Macarini
Com a morte de Aníbal Khury encerra-se um ciclo político de quase 40 anos, no Paraná, e um novo se inicia. Porque a vontade deste homem foi sempre prevalecente e exerceu influência marcante sobre a vida e obra dos Poderes, determinando os rumos da história político-administrativa paranaense e refletindo direta e indiretamente sobre toda a população.
Sem a presença do compositor que escrevia a música, colocava-a sobre o cavalete de cada integrante da orquestra, para que a executasse fielmente, e ainda assumia a regência, doravante cada instrumentista que tomar assento na Casa de Concertos terá que aprender a compor, a solar, a fazer arranjos, e, sobretudo, a tocar em conjunto, sem o velho maestro.
Em outras palavras, daqui para diante, ao assentar-se em sua cadeira na Assembléia Legislativa, cada deputado olhará ao redor e ver-se-á apenas ele, como um piloto de corrida que assume o cockpit e sabe que ninguém mais será o condutor; e, pela ausência do sinalizador de pista, ter que correr na harmonia do conjunto para evitar acidentes de percurso. Como foram sempre guiados pelo piloto automático, os deputados que vieram se revezando nestas quatro décadas nunca aprenderam a pilotar sozinhos, e agora, os que hoje estão, terão que aprender.
Neste momento histórico, o Poder Legislativo deixa de ser metropolitano e assume dimensões estaduais. Cada deputado emancipa-se e agora terá que pensar e decidir pela própria cabeça. O representante de cada região irá acordando do sono letárgico e assumindo a consciência de que pode apresentar projetos pertinentes à sua área, sem receio de sentir-se provinciano. Contemplará seu novo horizonte político e despertará para a realidade que o Paraná se expande além dos limites do edifício da Assembléia.
No início ocorrerá algum tumulto, como de abelhas que perderam a rainha, mas logo uma nova ordem se instalará. Lideranças emergentes despontarão e vozes ecoarão fortes e corajosas sob as abóbadas da casa legislativa. Encerram-se as sessões do café matinal – qual tempo das ‘‘varandas e dos coronéis’’ – e cada parlamentar saberá que o ponto de encontro é, mesmo, o recinto da Assembléia.
Agora será a vez não de todos pela vontade de um, mas de um por todos e todos pelo Paraná.
É irrelevante, nesta hora, questionar as razões que permitiram que um só homem, durante quase meio século, enfeixasse em suas mãos tanto poder político, a ponto de colocar em pauta as proposições que quisesse, retirar as que não quisesse, ordenar e conseguir a aprovação de quantas desejasse ou arquivar aquelas que não eram de sua vontade. Destacaram-se raras exceções, cada qual a seu tempo, mas o que pode uma voz isolada a bradar no deserto?
Presidente da Assembléia ou não, Aníbal Khury foi, com a sutileza de mercador fenício, sempre a palavra primeira e a palavra final. De tal forma que os coadjuvantes nem se apercebiam e, depois de lhe outorgarem o voto da concordância – afinal o objetivo do mago – ainda se prostrassem em reverência de devedores. Nunca no Paraná um político comandou tantos, durante tanto tempo, dentro e fora de seus domínios. Como nenhum outro, este homem soube penetrar fundo na alma de cada um de seus pares (e ímpares), descobrir-lhe os pontos sensíveis e saber estimular esses pontos. Ser líder deve ser exatamente isto: detectar tais pontos e massageá-los com carinho.
Mas não só os deputados. Ele segurou com rédeas curtas – ou às vezes frouxas, porém sempre em suas mãos – também governadores e secretários de Estado, prefeitos e vereadores da capital, comandantes policiais, chefes políticos e titulares de repartições, prefeitos das seis dezenas de municípios que ele criou, exercendo também influência sobre venerandas figuras de outros Poderes. Passou incólume pela voracidade crítica da imprensa, ressalvadas algumas ‘‘faltas de meio-de-campo’’, destas que o árbitro marca para parecer imparcial mas que não irão resultar em gol. Nunca uma penalidade máxima...
O fascínio que este homem exerceu sobre as esferas do Poder foi sempre um intrigante mistério. Vivo, Aníbal Khury era um homem amado e temido; morto, transforma-se no mito.
Se durante 40 anos nunca se questionou para quais canais fluiu o resultado de tanto poder nas mãos de um só político, e que benefícios trouxe à coletividade, é tarde demais e inoportuno questionar agora. Mas é certo que, nesta hora, uma nova ordem se instala no seio da Assembléia Legislativa e de toda a elite governamental paranaense.
No trato com a comunidade parlamentar – que agora passa a ter existência real – os governadores, doravante, terão que aprender a falar e a ouvir diferentes linguagens. Não mais poderão tratar e tudo resolver com apenas um, mas com 54. A comunidade governamental ingressará em novo aprendizado e os deputados aprenderão a ser deputados, porque agora ninguém mais falará por eles. A Casa de um só deputado abre as suas câmaras, a unidade desdobra-se em cinco dezenas de figuras ainda sonolentas pelo despertar brusco, mas essas figuras começarão a ganhar forma, a movimentar-se e perceber-se existentes. Se antes isto não foi possível – aprisionadas que se encontravam, pela magia do encantamento do Faraó – a partir de agora veremos cada deputado ir ressurgindo dos sarcófagos. Com o dom do livre ser, do livre pensar e do livre falar.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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