Paraná e Brasil não podem ficar no escuro
O período das trevas conhecido na história da humanidade, compreendido na Idade Média, foi o período do engessamento do progresso político, filosófico, tecnológico e científico ocasionado pela brutalidade da hegemonia ideológica dos senhores feudais. O pensamento único de outrora em termos sociológicos e econômicos representou um entrave objetivo no desenvolvimento das forças produtivas.
Atualmente, no Brasil que implementa um modelo econômico ao sabor e mando do FMI corremos igual risco de cairmos em um novo período das trevas travestido de moderno. Uma escuridão de ordem estratégica que nos imponha dificuldades para vislumbrarmos um rumo de desenvolvimento sustentável, com as características nacionais, um caminho próprio brasileiro.
A entrega de setores considerados estratégicos para uma nação ao capital nacional e internacional, sob o signo da redução do Estado e, consequentemente, da diminuição da intervenção do mesmo na economia, mostrou-se uma enganação por completo. Energia elétrica, telecomunicações, petróleo e água ainda movimentam exércitos e proporcionam guerras em todo o mundo. Os interesses dos países desenvolvidos, portanto, giram em torno dessas questões.
A liquidação do patrimônio público, das infra-estruturas erigidas ao longo de gerações de brasileiros, é calcada pelo falso discurso da compensação social. Isso significa, na pregação neoliberal, investimento, sobretudo, na educação e na saúde; ou seja, um Estado minimamente leve mas robusto aos banqueiros e aos agiotas internacionais.
De fato, o que ocorre com as privatizações o termo mais correto seria internacionalização é o favorecimento de corporações que mantêm relações promíscuas com os governos de plantão. Títulos podres moedas podres e toda a sorte papéis sem valores são recebidos como a panacéia.
A qualidade dos serviços prestados à sociedade pelas empresas liquidadas são péssimos, inversamente proporcional à generosidade das circunstâncias que transferiram para as mãos da iniciativa privada os controles acionários dos patrimônios antes patrimônio do povo. Basta analisarmos os problemas gerados em virtude da busca insana do lucro em detrimento do bem-estar das pessoas. Os apagões no Rio de Janeiro promovidos pela ex-estatal Light e as reclamações contra a Telepar no Paraná são os mais emblemáticos e ilustram com maestria a questão.
O modelo de privatização ora em vigor no Brasil é o mesmo utilizado pelos Estados Unidos. Lá, na Califórnia, a crise energética é crônica e ganhou as manchetes mundiais recentemente. A desregulamentação do setor de distribuição e o de geração (que oscila de acordo com a lei da oferta e da procura) provocou o encarecimento e, de quebra, os famosos apagões.
Concomitante, as circunstâncias e o modelo de privatização geram muitas dúvidas. Nenhum retorno palpável, em melhorias de condições de vida, como apregoava e apregoa o governo, foi sentido por nós, cidadãos. Portanto, preocupa-nos muito abrirmos mão do pouco que ainda resta do patrimônio. Pois à medida em que é vendido, e, em tese, mesmo com a entrada de dinheiro em caixa, paradoxalmente, assistimos a dívida pública alcançando os céus.
Para se ter uma idéia mais completa da preocupação excessiva pelo lucro em detrimento da qualidade dos serviços essenciais à população, as reclamações feitas por consumidores no Procon/PR, envolvendo a Telepar (já privatizada), chegaram a 6.527 no ano de 2000; quando controlada pelo poder público, em 1998, o órgão registrou apenas 1.168 reclamações! A Copel, em 2000, sofreu somente 964 reclamações nenhuma grave.
A Copel é proprietária de um patrimônio incalculável, que é o conhecimento tecnológico. Seu faturamento total neste ano, sem o ICMS, deverá ser de R$ 1,8 bilhão. Desenvolve um sistema inédito de interligação na área telefônica, a partir da participação na Sercomtel de Londrina, o que lhe renderá outros R$ 100 milhões. É, portanto, uma empresa que orgulha os paranaenses pela qualidade de seus serviços e apresenta uma robustez invejável no caixa.
Por isso o CREA-PR é contra a privatização da Copel. Por um senso de visão estratégica, o Conselho defenderá esta companhia paranaense em conjunto com outras entidades da sociedade civil organizada. O Paraná não é a Califórnia e o Brasil não podem ficar no escuro.
- LUIZ ANTONIO ROSSAFA é presidente do CREA/PR - Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Paraná.





