O que fazem com a ''última flor de Lácio, inculta e bela'' é constrangedor - mais constrangedor ainda é ver nossas autoridades mutilando nosso idioma para macaquear o idioma alheio. Durante as primeiras transmissões das ''Paraolimpíadas'' eu sentia algo estranho, como se estivesse ouvindo errado. Eles diziam: ''Paralimpíadas''. Eu pensava com meus botões: ''Mas que coisa é essa, estão cometendo um erro grosseiro''.
Mas não era exatamente um erro, era a necessidade premente que o brasileiro tem de imitar o que vem de fora, mesmo que para isso tenha que tripudiar sobre sua própria língua.
O Comitê ''Paralímpico'' Brasileiro resolveu adotar a forma lusitana ''paralímpico'', a qual, por sua vez foi copiada pelos portugueses da expressão inglesa ''paralympic''. Adotando esta aberração linguística, o nome do comitê português ficou ''Comité Paralímpico de Portugal'' (a acentuação aguda em comitê ocorre porque muitas palavras que aqui nós acentuamos com o grave (circunflexo), em Portugal a pronúncia é aberta, daí ''comité'').
Ora, se consultarmos qualquer dicionário do português falado no Brasil, veremos que o prefixo ''para'', de origem grega, tem diversas aplicações na nossa língua, com o sentido de ''junto'', ''contrário'', ''semelhante'', ''para além de'', ''proximidade'', ''distúrbio'', entre outros: paralexia (distúrbio de leitura), paradoxo (contrário à opinião comum), paradromo (local ao lado da pista de corridas -- Grécia Antiga); parafantasia (fantasia que transcende o objeto visado, permitindo representações pouco relacionadas com ele), parafilo (semelhante a uma folha), parafonia (defeito da voz que a torna desagradável), parageusia (distúrbio de paladar), paramastite (inflamação ao redor, próxima da mama), paramétrio (tecidos que envolvem o útero, próximos ao útero), paramilitar (semelhante a militar), parapsicologia (semelhante à psicologia ou além da psicologia), etc.
Em relação às ''Paraolimpíadas'', são assim chamadas porque são jogos semelhantes aos Jogos Olímpicos. Na construção de palavras compostas com o prefixo ''para'', nós podemos suprimir a vogal final do primeiro elemento, mas nunca a vogal que inicia o segundo elemento formador. Assim, se você escrever ''gastroenterologista'' ou ''gastrenterologista'', estará correto em ambas as formações. Portanto, deve-se escrever Paraolimpíadas, mas nunca ''Paralimpíadas'', porque estará suprimindo a vogal final do segundo elemento, o que é incorreto. Assim como em soci(o)econômico, hidr(o)elétrica, gastr(o)enterite, entre outras. Poderíamos, portanto, dizer: Paraolimpíadas ou ''Parolimpíadas'', mas nunca para ''Limpíadas''.
Portanto, utilizar largamente e em toda mídia um erro grosseiro desses, porque os portugueses copiaram dos ingleses, é no mínimo confessar publicamente a submissão ao ''novo'' que vem de fora, é escancarar nosso complexo de inferioridade como povo e como Nação, ou o desconhecimento da língua pelos diversos meios de comunicação.
Parte da mídia sequer tem coragem para dizer a nossa egrégia mandatária maior que não existe a forma feminina para o substantivo ''presidente'', no sentido de o que governa uma nação. Presidenta é admitida apenas no uso familiar, indicando aquela que governa ou preside um lar; a dona da casa. Em português você diz: o presidente fulano, a presidente fulana. E só. Chamar a presidente Dilma de ''presidenta'' só porque ela falou essa besteira no primeiro dia de governo, ou é falta de personalidade ou é puro puxa-saquismo.
Há tantas distorções e bizarrices no uso de nossa língua (e não é o caso de gíria) que daria um dicionário inteiro de besteiras. O mais grave é que estes erros, estas aberrações chegam ao cidadão pela mídia e, como o cidadão brasileiro acredita em primeiro lugar em Deus, e em segundo, na mídia, o estrago está garantido.

PAULO ANDRÉ CHENSO é médico e professor em Londrina

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