Me veio um reel (Instagram) onde alguém questiona: ´vocês já pararam pra pensar que o atleta negro Jesse Owens entrou mais fácil na Alemanha nazista para disputar as Olimpíadas de 1936 do que o atacante iraquiano Aymen Hussein para disputar a Copa de 2026 nos Estados Unidos?’

Eu não havia ‘parado para pensar’. Parei, pensei e concordei. Vamos, todavia, contextualizar para discorrer...

Jesse Owens era, em 1936, candidato ao topo do próprio monte Olimpo, naquilo que sua negritude oferecia, como poucas vezes na história, uma oportunidade de expor a mentira dos supremacistas, justamente na prova mais nobre das Olimpíadas – a corrida de cem metros rasos, onde a contenda se anunciava entre Owens e o campeão europeu, o alemão Luz Long (branco de olhos claros).

Seria (como foi) ocasião para o mundo acompanhar, em tempo real, uma disputa entre a raça dita pura e um negro – uma das minorias perseguida pela ideologia nazifascista.

A história se fez e o negro Owens deu um pau no alemão ariano. Foi em pleno estádio olímpico de Berlim, sob olhares atônitos de muito ariano, contando com a presença do próprio fuhrer e de uma caterva de nazistas.

Owens, que só por ter pisado no estádio olímpico de Berlim em 1936 já entraria para a história, entronizou-se no panteão dos grandes mitos olímpicos ao derrubar a mentira suprematista pelo suor e talento da própria grandeza.

Ao longo de minha vida (61 anos e contando) sempre agradeci aos deuses por Owens. Sua proeza, mais que inspirar, respira – em favor da humanidade, desenhando na gelosia da existência a fresta por onde entra o próprio espírito olímpico.

O que se viu após a conquista de Owens é história e, talvez, sua recepção nos Estados Unidos, como herói da humanidade, em luxuoso hotel de Nova York (Waldorf Astoria), onde teve que entrar pelos fundos (afinal, era negro), talvez explique ou dê pistas do que sempre passou com os pilgrins.

Em 1936 o establishment não cedeu, nem em face a extraordinária conquista civilizatória de Jesse. Para os ignaros do norte o herói era, antes, um cidadão negro – ainda que elevado ao panteão dos mitos da humanidade.

De 1936 a 2026 são 90 anos. Quase um século. E o que temos assistido na vã-premier da Copa do Mundo de futebol mostra que Owens talvez tenha sido menos maltratado pelos nazistas do que o atacante iraquiano Aymen Hussein pelo atual modelo de governança estadunidense.

A humanidade segue escrevendo a própria tragédia, naquilo que seus suspiros convulsos não alcançam empatia como seria de se esperar no atual recorte da civilização, onde conquistas tecnológicas calibram maravilhas de bem viver, ainda que todas elas sejam precificadas.

No patrocínio de evento esportivo mundial, os estadunidenses fazem uso da arrogância que se lhe caracteriza (senão enquanto povo, na condição de establishment), tangendo a intolerância em relação a estrangeiros, na pessoa não só de turistas apaixonados pelo jogo dos jogos (futebol baby, futebol – cuja melhor metáfora está desenhada pelo Bardo dos Bardos: Corinthians minha vida, Corinthians minha história, Corinthians meu amor!), como dos próprios atletas em competição.

O ideário de Coubertin segue sendo um ilustre desconhecido pelos adoradores de milk-shake e do tio patinhas...

Deveras, não há decência no afã da descortesia. Atravessei uma pandemia convivendo (nauseado) com fascistas até então resignados ao armário da vida, em malévola hora despertados pelo messias dos ignorantes.

A pandemia entorpeceu nossos sentidos. Tentei entender a limitação alheia, mas a vida se impôs (como deve ser sempre) e, quando já vomitava o asco de um convívio putrefato pelo desprezo à tragédia explorativa das gentes, tomei de volta ao prumo minhas escolhas, naquilo que viver é não deixar de acreditar.

Segue sendo difícil ouvir que radicalizei, suposto que a política não deveria semear discórdia, mas como concordar com quem crê que as minorias sejam inferiores?

Como olhar para minha mãe, minha mulher e minha filha e nora e não sentir asco dos que lhes inferiorizam por serem mulheres? Como viver uma mentira dentre as dificuldades de bem viver?

Não consegui, para minha felicidade. Não será agora que passarei pano para pilgrin idiotizado pela crença mitômana da própria grandeza.

Deveras, uma copa do mundo de futebol deveria ser um evento que unisse os povos – jamais o prodígio da exacerbação de diferenças criadas por imperialistas doentes, com o perdão do pleonasmo.

Torço para que a seleção estadunidense não passe da primeira fase. Torço, ademais, para que aqueles que não se levantem contra o imperialismo norte-americano e suas guerras mentirosas (mormente o genocídio em Gaza), não se criem em nenhum dos lugares de fala que a humanidade ainda salvaguarda.

A vida e a história devem ser mais e melhor compreendidas, para que, doravante, sobrevivamos no convívio dos verdadeiros mitos – Jesse Owens, Mohamed Ali, Pelé...

Tristes trópicos. Free Palestina. Saudade Pai!

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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