Paradoxos do Distrito Federal - Hélio Doyle
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segunda-feira, 12 de outubro de 1998
Hélio Doyle 
Cristovam ganhou, o PT perdeu. O crescimento político e eleitoral do governador Cristovam Buarque não foi acompanhado pelo PT do Distrito Federal, que saiu da eleição menor do que entrou. Cristovam mostrou que é mesmo maior do que o PT, recebendo votos de eleitores que em outras circunstâncias não votariam no partido.
O PT não conseguiu capitalizar os quatro anos de governo e aumentar suas bancadas no Congresso e na Câmara Legislativa. E dois de seus mais importantes dirigentes locais ficaram sem mandato: o presidente Chico Vigilante e a vice-presidente Maria Laura, ambos derrotados na tentativa de se reeleger para a Câmara dos Deputados.
O PT elegeu agora cinco deputados distritais e dois federais. Em 1994, sem ser governo e quando Cristovam ainda não tinha a força eleitoral que tem hoje, o PT elegeu sete deputados distritais e dois federais - sendo que a coligação Frente Brasília Popular, que agora elegeu três deputados federais, em 1994 elegeu quatro, metade da bancada de oito deputados. Os votos de legenda no PT caíram para a metade.
Em 1994, o PT também elegeu um senador, Lauro Campos, que nunca tinha exercido um cargo político. Agora, apesar de ser vice-governadora, Arlete Sampaio perdeu a eleição para o Senado. Tudo isso mostra que apenas Cristovam (e alguns ex-secretários) beneficiou-se politicamente dos quatro anos de governo, ampliando sua base política e conseguindo apoio em segmentos da população brasiliense geralmente arredios ao PT. É verdade que Arlete Sampaio também foi além da votação geralmente atribuída ao partido, algo em torno de 25% dos eleitores do Distrito Federal. Mas boa parte do excedente foi mais um voto útil contra Luiz Estevão do que a favor do PT.
Cristovam beneficiou-se eleitoralmente das divergências que tem com o PT e que foram deliberadamente mais difundidas publicamente durante a campanha eleitoral, em várias entrevistas. Ganhou apoios fora do PT também quando os jornais passaram a publicar notas e matérias mostrando que o presidente Fernando Henrique e alguns de seus ministros tinham simpatias por sua candidatura.
Foram manobras calculadas, que deram certo. Não foi à toa que o governador defendeu a permanência de Pedro Malan e da equipe econômica nos primeiros meses de um governo de Lula. A cada demonstração de aproximação com Fernando Henrique e com o governo federal, Cristovam melhorava sua posição entre eleitores que resistiam em votar no PT. Criava problemas para ele no PT, mas sabia que isso seria contornado, pois os petistas poderiam achar ruim, mas não teriam outra alternativa que não a de apoiá-lo.
A escolha do ex-deputado Sigmaringa Seixas para candidato a vice-governador também contribuiu para diferenciar a imagem de Cristovam da que tem o PT. Tirou de muitos eleitores a idéia de que Cristovam teria o PT em seu pé. Sigmaringa foi do PMDB, deixou recentemente o PSDB e ainda não é identificado como petista militante. Tem bom trânsito e aceitação nos segmentos de centro-esquerda que não queriam nem Roriz nem o PT e que acabaram votando em Cristovam.
Se Cristovam vencer em 25 de outubro, poderá acomodar no governo do Distrito Federal o PT que sobrou das eleições e tudo poderá ficar bem. Se perder, sofrerá por ter crescido mais que o partido.


