Paradoxo chinês: tecnologia de ponta, exploração à exaustão
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domingo, 12 de julho de 2026
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Edinelson Alves, 
A China do século XXI tornou-se a moderna "fábrica do mundo", com domínio absoluto das cadeias de suprimentos e do comércio internacional. Líder no 5G e em veículos elétricos, o país exporta semicondutores e Inteligência Artificial. Contudo, por trás desse avanço esconde-se uma realidade de famílias fragmentadas e trabalhadores explorados à exaustão.
O início dessa ascensão remete a 1971, quando Henry Kissinger realizou uma missão secreta a Pequim para reatar o diálogo. O movimento preparou a visita de Richard Nixon em 1972, encerrando 23 anos de isolamento pós-Revolução Comunista de 1949. O encontro, apelidado de “A semana que mudou o mundo”, lançou as bases para a integração chinesa na economia global, culminando na entrada do país para a OMC em 2001.
O mundo parece hipnotizado diante do avanço da tecnologia chinesa. No entanto, o milagre econômico se sustenta, em parte, pelo abuso da mão de obra barata. A privação começa no nascimento com o Hukou, passaporte interno que vincula o cidadão ao local de origem. O registro urbano ou rural define o acesso à saúde, educação e previdência. Quem migra para as grandes cidades sem transferir o Hukou vira um "estrangeiro" na própria pátria, perdendo direitos públicos.
O resultado é trágico: milhões de pais são forçados a migrar para as cidades, porém, impedidos de levar os filhos. Mais de 60 milhões de crianças crescem sob cuidados de avós ou vizinhos. Esses "órfãos de pais vivos" sofrem traumas profundos, pois reencontram a família apenas uma vez por ano, no Ano Novo Lunar.
Mesmo proibida desde 2021, a cultura "996" (das 9h às 21h, seis dias por semana) impõe uma jornada de 72 horas. Em grandes metrópoles, pesquisas de saúde ocupacional estimam que mais de 75% dos trabalhadores de escritório sofrem de fadiga crônica, distúrbios de sono e estresse severo. O que antes era vendido como patriotismo transformou-se em exploração.
Essa conduta ultrapassa fronteiras. A BYD, no Brasil e na Hungria foi denunciada por práticas de abuso e exploração de trabalhadores. Em Minas Gerais, um gerente da Midea, outra multinacional chinesa, foi acusado de agredir fisicamente um trabalhador.
Além disso, a ONG China Labor Watch, sediada em Nova York, expôs graves as seguintes violações na Foxconn, fabricante do iPhone da Apple em Zhengzhou: utilização de mais de 50% de terceirizados (superando 100 mil operários); retenção de salários atrelada a bônus futuros para evitar demissões; exploração de estudantes e menores estagiários; jornadas extremas de até 75 horas semanais; veto explícito à contratação de grávidas e minorias étnicas; e ameaças a operários que tentavam reclamar das condições laborais.
O mundo conhece a face inovadora da China, mas ignora a ditadura de Estado sob o controle de Xi Jinping. Ele acumula os cargos de secretário-geral do Partido Comunista, Presidente da República e Chefe das Forças Armadas. Xi comanda o Partido, o Estado, o Exército e as indústrias, que são rigidamente monitoradas por células partidárias internas.
Para agravar o cenário de controle, o governo obriga, em algumas regiões, a cremação dos mortos devido à escassez de terras cultiváveis e à alta nos preços dos jazigos. Como o confucionismo exige o sepultamento do corpo intacto para o descanso da alma, a restrição gera fortes conflitos culturais. Um país que explora os vivos e não permite o descanso digno dos seus mortos revela-se um gigante com pés de barro.
Edinelson Alves, jornalista
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