Paradoxo ambulante
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de novembro de 1996
Ruy Fabiano 
O ex-presidente Itamar Franco, cujo nome encabeça o movimento contra a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, não parece preocupado com o paradoxo de sua presença dentro do governo. Em princípio, esse é um problema do governo. É pelo menos como Itamar situa politicamente a questão.
Como embaixador junto à Organização dos Estados Americanos (OEA), fórum importante, sobretudo em relação a programas no âmbito da educação e saúde, Itamar é funcionário de confiança do presidente da República. Isso, claro, em termos formais. Nada menos formal, porém, que Itamar. Por isso mesmo, essa confiança, na prática, não existe.
O ex-presidente tinha expectativas melhores em relação ao atual governo. Imaginava-se um consultor influente, com penetração em áreas importantes, alguém em quem fosse reconhecida a paternidade política da atual situação de poder. Não é o caso. Os espaços que lhe couberam - embaixador em Portugal e, a seguir, na OEA - nada têm a ver com sua natureza (ninguém menos diplomático que ele), nem com seus objetivos, que continuam ligados à política interna.
Itamar opõe-se à reeleição de Fernando Henrique. Tinha expectativas de vir a sucedê-lo com o apoio dele próprio. Esse compromisso teria sido selado, de maneira informal, quando da escolha da candidatura de Fernando Henrique a presidente. O nome inicialmente cogitado foi de Antonio Britto, hoje governador do Rio Grande do Sul, e naquela época ministro da Previdência. Brito, porém, não quis, abrindo chance para Fernando Henrique, então ministro da Fazenda.
Itamar diz que naquela ocasião, nem no curso da campanha eleitoral, jamais falou-se em reeleição. E ainda: se a idéia tivesse circulado, teria sido rejeitada por ele e o candidato FHC seria provavelmente vetado. A partir dessa mudança de atitude de Fernando Henrique, Itamar considera-se traído. Daí seu empenho em marcar presença contra a reeleição , dispondo-se inclusive a integrar frente suprapartidária nesse sentido.
O deputado petista Paulo Delgado, conterrâneo de Itamar - ambos têm base em Juiz de Fora -, chegou a lançar sua candidatura a presidente da República numa coligação com o PT. A idéia encontra, como é óbvio, múltiplos obstáculos. Sua simples formulação, porém, já demonstra o quanto Itamar é alheio à atual estrutura de governo que integra. Mas não pede demissão. O melhor que lhe pode acontecer, neste momento, do ponto de vista de seus planos políticos, é ser demitido.
Daria a todas as suas ações, daqui por diante - sobretudo às campanhas anti-reeleição e antiprivatização da Vale -, o cenário promocional que necessita para torná-las mais eficazes. O governo sabe disso - e por isso mesmo ainda não o demitiu. Não se sabe, no entanto, até quando ambos conseguirão sustentar esse paradoxo.


