Paradigma de R.S.B.
José Nêumanne
Rogério da Silva Ribeiro só podia ser identificado como R., se tivesse sido localizado pelos meios de comunicação na noite de 27 de setembro, quando atirou nas costas de Rodrigo Damus, de 20 anos, assassinando-o friamente no bairro residencial do Morumbi, em São Paulo, pois era menor de idade. Preso uma semana depois, confessou que o motivo do assalto, que terminou não havendo, pois o assaltado foi deixado agonizante no automóvel e os assaltantes fugiram em desabalada carreira, era conseguir dinheiro para pagar uma festa de aniversário. O assassino perdeu a licença para matar no dia 30, ao completar 18 anos de idade.
Após abater o rapaz, estudante de jornalismo, R. fugiu para casa, jantou, conversou com os pais e foi dormir. O pai de Rodrigo, Jorge Damus Filho, comoveu a cidade de São Paulo, falando de sua dor para repórteres de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão. Mas o assassino disse aos mesmos jornalistas que não teve nenhum problema para dormir naquela noite. Só não explicou por que queria tanto comemorar a saída da impunidade quase absoluta, com a chegada à maioridade.
Os políticos e as autoridades públicas, tão convencidas que estão de que a violência urbana no Brasil contemporâneo resulta da crise social provocada pelo desemprego e da divulgação de atos brutais pelos meios de comunicação, são convidados a considerar o paradigma de R., o frio matador do jovem Rodrigo.
Rogério Ribeiro matou por um motivo banal (conseguir dinheiro para uma festa de aniversário), não se arrependeu e não pode ser enquadrado na figura clássica do desesperado que passa fome e não suporta mais ouvir o choro dos filhos pedindo comida. Vivia numa casa de família estruturada, cujo único desconforto era a completa ausência de um móvel comum em qualquer lar brasileiro – o televisor. Não, porém, por causas econômicas, mas por convicção religiosa. Os pais, evangélicos, consideram o aparelho o porta-voz das forças infernais.
Ele não assassinou Rodrigo para matar a fome de um filho, mas para satisfazer a um capricho pequeno-burguês. E o fez porque encontrou duas facilidades inegáveis. Ele nem precisou comprar o revólver, pois o alugou do segurança de loja Robson Clementino de Almeida, de 21 anos, por R$ 100 a noite. E, por mais cruel que tenha sido seu crime, daqui a exatos três anos ele estará solto, porque chegará aos 21 anos e, protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, não poderá mais responder criminalmente pelo que fez antes dos 18. O juiz que o mantiver por uma hora a mais detido que seja será, ele mesmo, processado nas formas da lei.
Ainda assim, as autoridades brasileiras se orgulham do estatuto, tido e havido como um documento legal digno de um país do Primeiro Mundo. Depois da prisão de Rogério, que já pode ser identificado, um especialista no assunto, o juiz Alírio Cavalieri, fez, numa entrevista a uma emissora de rádio, leves críticas ao documento legal, propondo uma reforma cosmética dele e fazendo questão o tempo inteiro de não ferir as suscetibilidades dos ‘‘estatutistas’’. Em nenhum momento, frisou várias vezes, ele queria com as críticas empanar o brilho do trabalho e a vaidade dos autores da lei, que, à guisa de proteger o menor, transformaram-no em joguete impune na mão de bandidos maiores e organizados.
Triste país é este, onde a vaidade dos peritos é preservada com mais desvelo do que a vida dos jovens honestos, como Rodrigo, que foi enterrado junto com seus sonhos para satisfazer a uma fantasia de consumo de um celerado, que, se não fugir até lá, o que é bem provável, terá cumprido três anos de pena numa instituição considerada uma inferno por quase todos, mas que parece ser menos arriscada do que a rua, onde Rodrigo e outros seres humanos tombam diariamente, vitimados pela sanha de assassinos acobertados pela impunidade e pela falta de caráter de uma gente, que prefere conviver com a insensibilidade absoluta diante da dor alheia a ter a vaidade ferida pelo desmentido cotidiano da vida real a suas bem elaboradas teorias sociais ‘‘politicamente corretas’’.
- JOSÉ NÊUMANNE é jornalista e escritor em São Paulo

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