Desde o início da corrida eleitoral, há quase um ano, com a aprovação da emenda de reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, dizia-se que a população estava apática, alheia às discussões políticas, cansada de tanto votar. O sentimento tornou-se mais forte com a proximidade das eleições. Não se viu muita gente nas ruas agitando bandeiras, desfilando adesivos de candidatos. Nem os candidatos atreveram-se a fazer comícios, certos de que o chamado povão não estava nem aí para a eleição, para a crise econômica e para a discussão política.
Abertas as urnas, contados os votos, descobriu-se que o povão estava aí, sim, talvez como nunca esteve antes. Parece-me que essa foi uma das eleições mais maduras já realizadas no País. Não houve a emoção da campanha de 1989, com seus grandes e vistosos comícios, nem a tranquilidade bovina da disputa de 1994. Talvez, por isso mesmo, o que se viu foi uma eleição fria e racional. Os resultados mostraram que o eleitor sabia o que fazia. Compôs o seu voto para cinco cargos diferentes, num monte de números de endoidecer até urna eletrônica, com a clareza do que eles significam no jogo do poder.
Atrevo-me a dizer que o eleitorado votou consciente, independentemente de pesquisas de opinião e programas de TV milionários. Não encontro outra explicação para o que aconteceu no País. O presidente Fernando Henrique Cardoso não levou a reeleição de lavada como se supunha. Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, venceu o presidente na maior parte dos estados do Nordeste, em geral solidários ao governo. O deputado mais votado do País é José Genoino, também do PT.
Não me parece que sejam resultados casuais. Os dados ainda precisam passar por um estudo detalhado, mas acredito que trazem uma mensagem significativa. O eleitor brasileiro votou no presidente porque tinha medo de mudar num momento de ameaça de crise econômica. Portanto, estava muito bem informado de que uma tempestade estava no ar. Não acreditou no país-maravilha vendido na propaganda eleitoral, mas no que sentiu no bolso e nas ruas. Era melhor não arriscar. Sabendo disso, deu-lhe o cargo, mas não um cheque em branco. A expressão dos votos de parlamentares e candidatos a governador de oposição mostram que eleitorado encostou o presidente na parede. Embora mantendo maioria no Congresso, não terá o poder ilimitado que se imaginava.
É difícil aceitar o argumento de que o eleitor errou na hora de votar. Teria apertado o botão errado ou simplesmente votado na pessoa do candidato, sem levar em conta sua posição ideológica. Tomemos o exemplo de Genoino. Será que o eleitor não sabia que ele integra o bloco de oposição ao presidente Fernando Henrique Cardoso e é parlamentar do PT? Duvido. Acredito que o eleitor fez de propósito. Cravou Fernando Henrique, mas elegeu Genoíno para atazanar-lhe a paciência no Congresso.
Há muitas leituras possíveis a partir do que revelaram as urnas. Mas a única coisa que não se pode dizer é que os 85 milhões dos 106 milhões de eleitores brasileiros que foram às urnas estiveram alheios à realidade brasileira, à crise econômica e teleguiados pelas campanhas na televisão. Estamos todos de parabéns.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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