Para trocar umas palavras
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de julho de 2002
Walmor Macarini 
É crença comum que a humanidade evoluirá na medida em que mais se alfabetizar, e que, quando não houver mais analfabetos, o mundo estará salvo de guerras e destruição. Não é bem assim, porque as guerras foram e continuam sendo produzidas por povos atrasados e também pelos culturalmente adiantados. Elas acontecem não porque os povos são analfabetos ou deixem de ser, mas porque são ignorantes.
Há pessoas dotadas de invejável cultura porém atrasadas, assim como há sábios entre os iletrados. O senso arraigado de que só por via da escolaridade o homem se tornará cidadão consciente é um equívoco. Ele evoluirá tão somente pela sabedoria, que pode dispensar bancos escolares, embora não se prejudique com eles. O avanço do nível cultural poderá significar apenas mais acúmulo de conhecimentos acerca de certas artes, ofícios e outras culturas, mas não garante que isso fará a vida mais feliz para as pessoas.
Para viver o mundo prático de hoje, o conhecimento dos mecanismos inerentes é necessário, mas é possível ter uma vida rica e alegre sem nada disso. Não é preciso o homem dominar a informática e fazer uso dela para ser completo. As pessoas têm deixado de conversar, de olhar-se nos olhos, porque precisam ir para casa ver os recados da internet e responder aos e.mails... Estranho comportamento de abandonar as pessoas verdadeiras para atender às pessoas virtuais. Outras encontram-se, mas estão apressadas, e depois penduram-se no telefone para falar tudo o que não se disseram pessoalmente.
As pessoas andam pela cidade, vêem tanta gente e as mais diferentes fisionomias, vêem modelos de automóveis, vêem vitrinas e a moda desfilando, vêem também misérias sociais e tragédias - quando não são partícipes delas - mas querem ver tudo isso convertido para a magia da telinha no noticiário da noite... E se diz que é ao vivo, quando o vivo estava lá fora. Na tela, tudo está ao morto, porque o virtual é apenas uma imagem. As pessoas passam, então, a admirar mais o virtual que o real. Isso não pode ser evolução, mas retrocesso.
A praticidade não faz obrigatoriamente as pessoas mais felizes, porque, quanto mais a tecnologia avança, mais elas têm de apressar-se para acompanhá-la. O homem ficou escravo da velocidade da tecnologia, porque ele é que passou a correr atrás dela. Isso criou uma legião de estressados e neuróticos. Tal pode ser prático e moderno, up to date, mas com tanta pressa não sobra tempo para parar e ver as flores.
As pessoas me encontram, fazem uma saudação e perguntam pelo meu e.mail, mas eu gostaria que elas perguntassem e me dissessem coisas mais interessantes, quem sabe o bar que eu frequento, para a gente se encontrar lá e conversar. E.mail é sinônimo de isolamento. Irreversivelmente, a humanidade irá se servir cada vez mais da tecnologia - e eu mesmo estou agora escrevendo num computador - e não se pode negar que as coisas, assim, ficam mais práticas. Mas, de minha parte, não quero que as pessoas se lembrem de mim apenas pelo meu e.mail.
A propósito, qual é mesmo o meu e.mail? Quem souber - porque eu já não me lembro - marque um encontro comigo amanhã às 10, no banco central da praça, para me dizer. E para que, assim, eu possa olhar nos olhos da pessoa e ela possa olhar nos meus, e a gente ao menos tenha a oportunidade de se dizer algumas palavras.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


