Uma pessoa minha conhecida comentou há pouco tempo que não votaria em Lula porque este não serve nem para síndico. Diante das possíveis candidaturas à Presidência da República, de Roseana Sarney e Aécio Neves, este mesmo amigo me disse: ''Bem, estes servem para síndico''.
A frase lacônica, irônica e lapidar, traduz na verdade o cenário político do momento, onde não avulta nenhum candidato capaz de entusiasmar eleitores mais exigentes. E podemos nos perguntar se a política, que nunca foi um reduto de virtuosos, degradou-se também em termos da qualidade dos seus quadros.
Talvez a política tenha se degradado nesta época em que tudo está banalizado através do processo de massificação. Como escreveu José Ortega y Gasset na sua obra ''A Rebelião das Massas'', ''a característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda a parte''.
A mediocrização generalizada que atinge o ensino, a arte, os comportamentos, de fato não poderia deixar de atingir também a política em todo o planeta. É sintomático que nos Estados Unidos tenham disputado as eleições presidenciais candidatos como George W. Bush e Al Gore. Não fosse o brutal atentado de 11 de setembro, possivelmente Bush não teria tido muitas chances de se notabilizar, como no momento acontece.
Mas voltando a nós, recordo-me de um artigo que escrevi em fevereiro deste ano, quando comentei as eleições mais disputadas e agitadas do Congresso Nacional para as presidências da Câmara e do Senado. Na Câmara levou a melhor Aécio Neves (PSDB-MG), que fez 283 votos contra os 117 de Inocêncio de Oliveira (PFL-PE) e os 81 de Aluizio Mercadante (PT-SP). Desta forma, o neto e herdeiro de Tancredo Neves deixou de ser o Aécinho ou o Tancredinho para tornar-se o terceiro homem da República, pois na eventualidade de faltarem o presidente e o vice-presidente ele assume o leme do barco do Estado.
No seu discurso de posse, Aécio parecia querer encarnar a força que o Poder Legislativo desfruta após a Constituição de 1988. Ele prometeu entre outras coisas pôr em votação a emenda constitucional que limitava a edição de medidas provisórias. E cumpriu a promessa.
Na terça-feira passada o deputado Aécio, que criou a Comissão de Ética, obteve uma vitória significativa. Ele conseguiu pôr em votação e fazer aprovar em primeiro turno o projeto que acaba com a imunidade irrestrita. O projeto ainda terá que passar na Câmara em segundo turno e no Senado em mais dois turnos. Só assim os parlamentares poderão ser julgados como quaisquer outros brasileiros que cometam delitos tais como assassinato, estelionato e roubo. Mas em tempos de indignação cívica contra a corrupção e os abusos dos governantes, Aécio se saiu melhor que a encomenda, e mesmo que sua trajetória de aprendizado político tenha ainda que passar pelo governo de Minas, pode-se dizer que ele está seguindo direitinho as pegadas do avô ilustre.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul onde o PT é forte, acusações de envolvimento com o jogo do bicho por parte de diretores do Clube de Seguros da Cidadania respingam no governador Olívio Dutra, e na Assembléia Legislativa cogita-se do seu impeachment. Para agravar a situação o PT, partido que se diz composto por cidadãos acima de qualquer suspeita, e que preza a transparência cobrada com rigor aos adversários, utilizou-se da censura na imprensa. Através de medida requerida pelos diretores acusados Diógenes de Oliveira e Daniel Verçosa Gonçalves, o juiz Régis de Oliveira Montenegro Barbosa concedeu liminar que proíbe a publicação pelos jornais Zero Hora e Diário Gaúcho, de uma gravação com o ex-tesoureiro Jairo Carneiro dos Santos que levantou as acusações.
Enquanto isto, Roseana Sarney alcança o segundo lugar nas pesquisas de opinião depois de 70 inserções em cadeia nacional, 250 em redes regionais e um programa do PFL todo a ela dedicado. Numa chapa Aécio/Roseana, os dois comporiam a imagem de candidatos ainda relativamente jovens e dinâmicos e alterariam as peças no xadrez da sucessão. Seriam também a novidade, integrada inclusive à presença feminina. Dentro do pragmatismo político, formariam uma boa dupla. Mas como disse Magalhães Pinto, a política muda como as nuvens no céu e é cedo para previsões, mesmo porque, as urnas são a única maneira de se saber com certeza o desfecho de uma eleição. Em todo caso, Aécio e Roseana pelo menos servem para síndico.


- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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