Para síndico
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de novembro de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Uma pessoa minha conhecida comentou há pouco tempo que não votaria em Lula porque este não serve nem para síndico. Diante das possíveis candidaturas à Presidência da República, de Roseana Sarney e Aécio Neves, este mesmo amigo me disse: ''Bem, estes servem para síndico''.
A frase lacônica, irônica e lapidar, traduz na verdade o cenário político do momento, onde não avulta nenhum candidato capaz de entusiasmar eleitores mais exigentes. E podemos nos perguntar se a política, que nunca foi um reduto de virtuosos, degradou-se também em termos da qualidade dos seus quadros.
Talvez a política tenha se degradado nesta época em que tudo está banalizado através do processo de massificação. Como escreveu José Ortega y Gasset na sua obra ''A Rebelião das Massas'', ''a característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda a parte''.
A mediocrização generalizada que atinge o ensino, a arte, os comportamentos, de fato não poderia deixar de atingir também a política em todo o planeta. É sintomático que nos Estados Unidos tenham disputado as eleições presidenciais candidatos como George W. Bush e Al Gore. Não fosse o brutal atentado de 11 de setembro, possivelmente Bush não teria tido muitas chances de se notabilizar, como no momento acontece.
Mas voltando a nós, recordo-me de um artigo que escrevi em fevereiro deste ano, quando comentei as eleições mais disputadas e agitadas do Congresso Nacional para as presidências da Câmara e do Senado. Na Câmara levou a melhor Aécio Neves (PSDB-MG), que fez 283 votos contra os 117 de Inocêncio de Oliveira (PFL-PE) e os 81 de Aluizio Mercadante (PT-SP). Desta forma, o neto e herdeiro de Tancredo Neves deixou de ser o Aécinho ou o Tancredinho para tornar-se o terceiro homem da República, pois na eventualidade de faltarem o presidente e o vice-presidente ele assume o leme do barco do Estado.
No seu discurso de posse, Aécio parecia querer encarnar a força que o Poder Legislativo desfruta após a Constituição de 1988. Ele prometeu entre outras coisas pôr em votação a emenda constitucional que limitava a edição de medidas provisórias. E cumpriu a promessa.
Na terça-feira passada o deputado Aécio, que criou a Comissão de Ética, obteve uma vitória significativa. Ele conseguiu pôr em votação e fazer aprovar em primeiro turno o projeto que acaba com a imunidade irrestrita. O projeto ainda terá que passar na Câmara em segundo turno e no Senado em mais dois turnos. Só assim os parlamentares poderão ser julgados como quaisquer outros brasileiros que cometam delitos tais como assassinato, estelionato e roubo. Mas em tempos de indignação cívica contra a corrupção e os abusos dos governantes, Aécio se saiu melhor que a encomenda, e mesmo que sua trajetória de aprendizado político tenha ainda que passar pelo governo de Minas, pode-se dizer que ele está seguindo direitinho as pegadas do avô ilustre.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul onde o PT é forte, acusações de envolvimento com o jogo do bicho por parte de diretores do Clube de Seguros da Cidadania respingam no governador Olívio Dutra, e na Assembléia Legislativa cogita-se do seu impeachment. Para agravar a situação o PT, partido que se diz composto por cidadãos acima de qualquer suspeita, e que preza a transparência cobrada com rigor aos adversários, utilizou-se da censura na imprensa. Através de medida requerida pelos diretores acusados Diógenes de Oliveira e Daniel Verçosa Gonçalves, o juiz Régis de Oliveira Montenegro Barbosa concedeu liminar que proíbe a publicação pelos jornais Zero Hora e Diário Gaúcho, de uma gravação com o ex-tesoureiro Jairo Carneiro dos Santos que levantou as acusações.
Enquanto isto, Roseana Sarney alcança o segundo lugar nas pesquisas de opinião depois de 70 inserções em cadeia nacional, 250 em redes regionais e um programa do PFL todo a ela dedicado. Numa chapa Aécio/Roseana, os dois comporiam a imagem de candidatos ainda relativamente jovens e dinâmicos e alterariam as peças no xadrez da sucessão. Seriam também a novidade, integrada inclusive à presença feminina. Dentro do pragmatismo político, formariam uma boa dupla. Mas como disse Magalhães Pinto, a política muda como as nuvens no céu e é cedo para previsões, mesmo porque, as urnas são a única maneira de se saber com certeza o desfecho de uma eleição. Em todo caso, Aécio e Roseana pelo menos servem para síndico.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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