Para se pensar
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quarta-feira, 25 de setembro de 2002
Walmor Macarini 
1 - Se o pobre mora em bairro só de ricos, sente-se deslocado, porque não fala a linguagem deles e assim não os entende e os acha arrogantes. Fica alheio. Decide então mudar-se para um lugar onde habitam os seus iguais. Vai, e ali se integra, reconhecendo-se e identificando-se com o meio. Passa a sentir-se bem. Com essa atitude, não desceu de nível, mas ao contrário, evoluiu, pois eliminou a situação de conflito. Harmonizou-se, ficou em paz. Assim a vida, em tantos momentos e circunstâncias. Tal não significa que se deve perder de vista anseios de riqueza se eles ocorrem, mas de buscar o ambiente onde cada qual se sentirá feliz. Essa quietação é uma forma de avanço, embora possa parecer o contrário. Às vezes a sabedoria da vida nos instala numa plataforma mais remota porém mais segura, para que a partir dela possamos vislumbrar melhor o que está em volta.
2 - O que é vitória e o que é derrota? Questão de ponto de vista. Quem é o número 1, é o maior, diz-se. O 2, é o segundo. Mas 2 não é maior que 1? Quem favorece a vitória do time adversário é também um vencedor, pois contribuiu para que tal acontecesse. Na loteria, quem faz zero ponto, ganha; que faz 1, perde. Mas em nada há ganhadores nem perdedores. Há resultados. Se ateamos fogo aos espinhos e detritos e se cozemos com ele os alimentos, dizemos que o fogo é benigno; se o fogo destrói a casa e a floresta, o vemos como um mal. Se chove em excesso, maldizemos a chuva e clamamos pelo sol, mas se faz sol demais e estorrica a terra, o amaldiçoamos e pedimos chuva. Se a água irriga o solo e faz germinar a semente, dizemos bendita água e bendita terra; mas se a enchente inunda nossas plantações e arrasta nossas casas, dizemos que é desgraça e calamidade. E assim ficamos na agonia de não identificar se o fogo é bom ou perigoso e se a água é amiga ou traiçoeira.
3 - Há pessoas que não querem que outras evoluam, para continuar qualificando-as de ignorantes, e valendo-se delas. Não desejam que ingressem em seu círculo, para não as verem igualadas, e porque se comprazem com essa situação de desnível. E outras, necessitam dos contrários, pois morreriam asfixiadas sem eles. Sem as vozes discordantes, os radicais não encontrariam ambiente para subsistir e se auto-aniquilariam em extertores de tédio e desmotivação; povos guerreiros enlouqueceriam, partidos políticos nem teriam motivação para existir, porque não sobrevivem se não alimentados pela existência dos rivais. O homem estimula-se na competição, porque não deseja experimentar caminho mais suave, que seria o da harmonia, do compartilhamento e da solidariedade. Pessoas que atuam em negócios idênticos qualificam-se não como iguais e parceiros, mas como concorrentes.
4 - Se pudéssemos ver a Terra como a viram os cosmonautas a milhares de quilômetros daqui, vislumbrando-a como uma bola azul pouco maior que duas luas, veríamos que estamos perdidos no espaço e fisicamente isolados do restante do universo. Aí poderíamos, quem sabe, nos conscientizar de que habitamos, todos, essa pequena esfera, que nem se acredita como flutua e se sustém. Tão pequena e inexpressiva é, na relação com a imensidão sideral que a circunda, e tão solitária e minúscula, que os cosmonautas têm de tomar muito cuidado e fazer cálculos precisos de navegação para não perdê-la de vista no retorno, ou acabarão vagando infinitamente nesse abismo sem fim. Na crosta dessa bola, 6 bilhões e 200 milhões de pessoas se abrigam, mas urdindo fórmulas de explodi-la, porque produziram mais artefatos capazes disso do que de preservá-la.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


