O escândalo envolvendo o senador Renan Calheiros esteve entre os fatos mais marcantes da política brasileira em 2007. Desde a absolvição pelos colegas de Senado até o pedido de renúncia da presidência, ficou desgastada não só a imagem de Renan mas principalmente da Casa, que perdeu em credibilidade.

Em entrevista à FOLHA por telefone, o senador Osmar Dias afirmou que será preciso muito trabalho para reaver a imagem da Casa. Ele ainda se mostrou contrário à aprovação da CPMF, criticando a falta de disposição do governo na criação de uma reforma tributária que alivie o bolso do contribuinte.

Como ficou a imagem do Senado depois de todos os escândalos envolvendo o então presidente Renan Calheiros?
A credibilidade caiu muito, e se enganam aqueles que pensam que as votações de final de ano recuperaram a imagem da casa. Vai ser preciso muito trabalho para isso. A população, até pelo avanço da tecnologia e da comunicação, está muito mais atenta ao que acontece na política. Se o Senado votar reformas que a população espera já no início do ano que vem, acredito que possa se recuperar diante da opinião pública. Não adianta ficar votando coisa que não vai ter influência nenhuma na vida das pessoas.

A população está cobrando mais?
Estou há 13 anos no Senado e nunca tinha experimentado tanta cobrança. As pessoas tanto cobram quando acontece algo que não as agrada quanto também reconhecem quando o resultado é positivo. Há uma sintonia maior entre a população e o Congresso, um sinal muito positivo de avanço da democracia.

O senhor esperava que o fim da multa mensal de R$ 5 milhões imposta ao Estado pelo não pagamento de títulos públicos comprados pelo governo do Banestado fosse aprovado já este ano ou foi uma surpresa?
Ninguém esperava, mas sempre nos últimos dias a gente consegue colocar em votação matérias polêmicas. Resolveu um problema reconhecido pelo próprio governador Roberto Requião, que é a sobrevivência financeira do Estado.

Qual o impacto direto disso nas contas do Paraná?
Espero que seja revertido em investimentos nas questões fundamentais. Seria muito bom que aqueles R$ 35 milhões conseguidos para o Hospital de Clínicas, que não vem mais para o Paraná em função da derrota da CPMF, fossem colocados pelo Estado para salvar o hospital desta crise. São muitos investimentos necessários em saúde, segurança, e acho que esta tirada de peso da dívida dos ombros do Estado deve aumentar a capacidade de investimento.

O senhor citou a CPMF. A batalha entre governo e oposição terminou com saldo positivo?
Preocupo-me muito com as consequências. Se tirar a CPMF e aumentar outros impostos, vai continuar o mesmo peso nos ombros de quem paga, com a diferença de que a CPMF tinha uma aplicação de qualidade em saúde, aposentadoria rural e bolsa família. O outro imposto a gente não sabe como vai ser aplicado. No final das contas, a sociedade perdeu. Quem paga vai pagar do mesmo jeito na forma de outros tributos, e quem recebia os benefícios vai ter mais dificuldades porque não há como melhorar a qualidade da saúde tirando este dinheiro.

Dá para prever uma nova queda de braço entre situação e oposição na criação de novos impostos?
A expectativa é que seja uma briga grande, porque a carga tributária está crescendo em função do aumento de 1% ao ano das despesas correntes. Não é por acaso que a carga tributária também cresce 1% em relação ao PIB todo ano. Aumenta a despesa, o governo tem que criar imposto para arrecadar o correspondente.

É possível pensar em uma reforma tributária de fato no país?
Fernando Henrique e Lula afirmaram que fariam, mas até agora não houve uma demonstração clara de disposição para isso. Os interesses são conflitantes. A reforma que o governo quer não é a mesma que os empresários querem. E não é a mesma dos municípios, dos Estados. Neste conflito todo, acaba sempre adiando. É preciso que haja conscientização de que o país não pode continuar neste ritmo de crescimento de carga tributária, porque todo crescimento do PIB está sendo engolido pelos impostos, não está sendo distribuído para a sociedade.

Falando um pouco da vida política, a derrota apertada nas últimas eleições estaduais já foi assimilada pelo senhor?
Não foi uma derrota. Considero uma vitória de quem saiu com pouco tempo de campanha, disputando contra a máquina do governo, contra os benefícios de quem disputa a reeleição, contra 370 prefeitos pressionados pelo governo. Então uma diferença de dez mil votos é uma vitória, e isso nos credencia a apresentar no futuro próximo um projeto moderno de administração do Estado, uma gestão mais harmônica. Pessoalmente, sinto-me fortalecido. Assumi toda a reponsabilidade, não culpei ninguém e me coloquei à disposição para o futuro.

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