O empate técnico nas pesquisas de intenção de voto entre Fernando Henrique Cardoso e Lula colocou na ordem do dia a discussão sobre os programas de governo. A mídia, intelectuais, técnicos, agentes econômicos, os mais diversos setores sociais, a parcela mais esclarecida da opinião pública e muitos eleitores procuram informações sobre aspectos globais ou parciais dos programas de governo que os principais candidatos à presidência pretendem aplicar. A preocupação é legítima. Afinal de contas, as decisões de governo afetam o dia-a-dia da vida das pessoas e as condições de operação da economia. Estudos acadêmicos mostram que as escolhas eleitorais ocorrem, de modo geral, a partir dos interesses e das expectativas que o eleitorado alimenta em relação aos candidatos. Isto revela que a decisão do voto se efetua a partir de desígnios racionais.
O programa de governo é, por vários motivos, uma peça importante da vida política. Do ponto de vista teórico, o que funda a importância do programa é o fato de que as relações e os assuntos humanos são instáveis e que junto com o próprio futuro são imprevisíveis. Dessa instabilidade resulta uma inconfiabilidade tanto dos seres humanos entre si quanto em relação ao futuro. Um programa de governo, em essência, é uma promessa. A sua função consiste em reduzir o grau de incerteza sobre o tempo vindouro, mesmo que seja por um período delimitado, e em estabelecer vínculos de confiança mais sólidos entre os membros de uma sociedade. Nesse sentido, o programa funciona também como uma espécie de contrato entre aqueles que querem governar e aqueles que serão governados. O programa não é assim uma mera peça propagandística ou eleitoreira e a democracia ganha com isso.
As pesquisas de opinião indicam também que muitos eleitores consideram que Fernando Henrique deixou de cumprir várias promessas feitas na campanha passada. Esta é uma razão importante de sua queda. Na presente disputa, o eleitorado julgará o governo mais pelo que ele fez ou deixou de fazer do que pelas propostas em relação a um futuro mandato do presidente. Com Lula e a esquerda acontece o inverso, por dois motivos. Primeiro, porque simplesmente Lula é o candidato das oposições. A parte do eleitorado que se predispõe em votar na oposição quer saber quais são as suas principais propostas. Sem dúvida, a candidatura Lula é e será a mais cobrada para que explicite uma proposta programática mais definida. Ocorre que - isto determina o segundo motivo - o bloco de forças políticas que apóia Lula, a rigor, nunca governou o Brasil, circunstância que se traduz numa incerteza maior da sociedade. Incerteza que só será superada com um grau de definição mais pormenorizado do programa de governo. A isto deve-se aduzir que nos últimos dez anos a esquerda vem passado por um processo de redefinição de seus rumos. A esquerda européia, por exemplo, seja pela sua experiência pregressa, seja pelas suas definições ou seja também pelo fracasso dos conservadores, conseguiu reconquistar a confiança do eleitorado e está governando quase todos os países que compõem a União Européia.
A queda do comunismo foi um dos fatores que marcaram as eleições presidenciais de 1989. As eleições de 1994 ocorreram no ápice do processo de aplicação de programas neoliberiais. Nos anos recentes, e as eleições de 98 estão inseridas nesse contexto, busca-se alternativas aos programas e governos conservadores. Muitos desses governos incluindo o de Fernando Henrique entre eles, privilegiaram a competição econômica em prejuízo do bem-estar social. As pessoas que foram deixadas à margem da estrada do progresso estão forçando as portas da competição econômica e da estabilidade monetária para colocar a estabilidade social como questão prioritária da agenda política. As eleições de 98 serão marcadas também pela crise na ponta daquilo que vinha sendo cantado em prosa e verso como exemplo de competitividade: os tigres asiáticos.
A esquerda brasileira tem a oportunidade histórica de tornar vitoriosa uma alternativa política nova para o país. O problema agora é como sustentar com conteúdo e credibilidade o seu crescimento nas preferências do eleitorado. Sem cair na meticulosidade técnica, a esquerda deve ser capaz de apresentar um programa que fuja da generalidade, que mostre ser prático e que não se reduza a uma maquiagem do que vem apresentado este governo, que tem muito de errado. A equação que a esquerda deve resolver nesses meses de campanha é a seguinte: como mudar o Brasil para melhor, principalmente no que diz respeito à estabilidade social e ao crescimento econômico, sem pôr em risco as conquistas já alcançadas e reduzindo as incertezas da sociedade em relação a um possível governo de Lula. Na democracia, a sociedade só opta pela mudança quando confia. Por isso, o programa da esquerda tem que ser realista e exequível. É sobre este ponto que seremos mais cobrados.
JOSÉ GENOINO é deputado federal PT/SP

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