Para que existe o Mercosul? - Victoria de Recanate
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segunda-feira, 15 de junho de 1998
Victoria de Recanate 
O Brasil deve manter o equilíbrio no Mercosul. A situação na tríplice fronteira deve ser resolvida com celeridade pelo país vizinho. É óbvio que um dos motivos que incentivam os brasileiros a visitar as Cataratas é a visita de compras em Ciudad del Este. É como Chiasso na Suíça e Como na Itália uma fronteira turística e econômica.
Esta região movimenta milhões de dólares, não só para o Paraguai como também para o Brasil. No marco desta união aduaneira se fazem negócios entre nossos dois países. A perda que ocasiona, toda vez, a nossos dois países a intervenção da Receita Federal, desta vez com a ajuda das forças militares, desequilibra a frágil estrutura do Mercosul.
É tremendamente prejudicial este procedimento contra modestos trabalhadores, os sacoleiros, que não são criminosos, como alguns querem chamá-los, mas trabalhadores informais movidos pela necessidade, em nossos dois países, que registram uma alta taxa de desemprego.
Acreditamos que o governo brasileiro deve reagir - e rápido - para evitar que o turismo na região desapareça. Centenas de hotéis de Foz do Iguaçu estão afetados, assim como as indústrias, principalmente a do transporte, o comércio em geral, a indústria alimentícia e o turismo como um todo.
Com este ataque se fragiliza as pessoas que trabalham, tanto na costa oeste como na do leste do rio Paraná. Frustram-se também os planos dos governadores e prefeitos de ambas as costas do rio Paraná, brasileira e paraguaia, de incrementar o turismo e o comércio.
Para que existe o Mercosul, se o enorme sacrifício do Paraguai, um país pequeno e tradicionalmente importador, afetado por tarifas externas comuns, não se materializa em um maior fluxo de comércio, indústria e turismo na região?
O triângulo das três fronteiras transformou-se numa região conflitiva. É certo que existe tráfico de armas, drogas e contrabando e, talvez, também células terroristas, como em qualquer outra parte do mundo. Estes e outros delitos devem ser combatidos por um organismo tripartite de controle brasileiro-argentino-paraguaio e não afetar a economia de toda a região, o que seria desastroso para todos.
O Paraguai compra milhões de dólares do Brasil em máquinas, produtos alimentícios, remédios, têxteis e outros. É uma economia regional de intercâmbio permanente. O Brasil, por sua vez, compra do Paraguai algodão, soja e produtos agropecuários e alguns industrializados.
Se esta sinergia se romper, haverá milhares de desocupados que integrarão o cinturão de pobreza crescente, tanto na região paranaense do Brasil e Paraguai como em Misiones, Argentina, nossas fronteiras tríplices.
A união alfandegária que pretendemos é para melhorar nossas economias regionais e o turismo e não para que a enorme assimetria existente, principalmente para o Paraguai e o Uruguai, seja uma via de desunião.
Promover o comércio e o turismo da região de Foz do Iguaçu e Cataratas e a estratégica Itaipu Binacional favorecem em extremo ao Brasil, que converteu esta região no segundo pólo turístico de seu país. O comércio bilateral com Ciudad del Leste também é altamente produtivo para conseguir este objetivo, mesmo levando-se em consideração alguns impostos que possa perder. Os grandes contrabandos não ingressam no Brasil por Ciudad del Leste mas através de suas vastas fronteiras.
Esta é a realidade de nossa região, e o governo brasileiro deve liberalizar rapidamente a cota turística para Ciudad del Leste, aumentando-a para 500 dólares. Criará, assim, mais fontes de trabalho na região que triplicarão, sem dúvida, os impostos a receber, pelos quais tanto se preocupa a Receita Federal.
O governo brasileiro tem a palavra, a possibilidade de melhorar a região e seu caudal de receitas para benefício próprio e da integração que pretendemos.
VICTORIA DE RECANATE é presidente da Protur - Promoção Turística do Paraguai


