Para quando deixar de ser manchete - Vilmar Berna
Para quando deixar de ser manchete
Vilmar Berna
Já vimos este filme antes. Em março de 1997, a mesma Refinaria Duque de Caxias, no Estado do Rio, deixou vazar 900 toneladas de óleo na Baía de Guanabara e, se não me engano, por problemas nos mesmos dutos. Na época, foi um escândalo. Nas manchetes de primeira página, que duraram uma semana, assistimos juras de autoridades da empresa de solução. Pelo visto, não passaram de promessas e bravatas. Agora, diante desse novo desastre, como devemos nos sentir?
Não podemos nos tornar amargos e irônicos, por mais que mereçam, diante do corporativismo defensivo e arrogante de funcionários, que se colocam acima das críticas, e desqualificam sempre que podem ambientalistas e a sociedade em geral, resumindo essas críticas e manifestações como politicagem e oba-oba.
É difícil, mas por mais que mereça, por mais que seja da nossa vontade, resistir para não jogar óleo na camisa do presidente da Petrobras, que investe mais em publicidade e projetos performáticos e menos em meio ambiente como devia, ou nessas autoridades federais e estaduais de órgãos de descontrole ambiental, que agora posam de amigos eternos do meio ambiente, mas deixam uma empresa deste porte e com um notório histórico de acidentes funcionar sem licença ambiental, sem auditoria ambiental.
Apesar dos fatos, precisamos ser fortes para lutar, internamente, contra o pessimismo imobilista, esse sentimento de revolta que teima em nos deixar um amargo na boca e uma profunda tristeza diante do olhar perplexo de um socó morto, por exemplo. Minha vontade era sujar a entrada do bonito prédio da sede da empresa, na Avenida Chile, no Rio, com animais mortos encharcados de óleo.
Percebo que nós, ambientalistas de muitos anos de militância, não temos o direito de desesperar. Existem centenas de voluntários que depositam em nós uma confiança que nem nós mesmos achamos que temos. Mais alguns poucos dias e a mídia estará dirigindo suas atenções para um outro assunto qualquer. A Petrobras, como sempre, criará alguma comissão muito importante, formada por funcionários muito importantes e que receberão as determinações muito importantes do presidente da empresa para dar agilidade às soluções, receber e analisar as propostas encaminhadas pelas ONGs e pela sociedade, e o resultado de todo esse esforço pode acabar dormitando em alguma dessas gavetas importantes, sob o carimbo de inexequível, não-prioritário etc.
Acho que é fundamental, antes que o assunto saia da pauta da grande mídia, que as ONGs consigam criar uma câmara técnica temporária no Conama para tratar das medidas de contingências a ser adotadas pelas indústrias de petróleo diante dos acidentes ambientais, estabelecendo prazos para que as coisas aconteçam, condicionando e revendo licenciamentos para que os planos de contingência sejam efetivos e não apenas um monte de papel na gaveta de algum burocrata muito importante. O foco do trabalho da Câmara deveria ser este acidente na Baía de Guanabara, procurando extrair dele todas as lições possíveis para que este mesmo fato não torne a acontecer.
É importante que a indústria de petróleo, especialmente a Petrobras, claro, seja obrigada ou mesmo voluntariamente a patrocinar um centro permanente de voluntários ambientais, para que as pessoas não tenham mais que atuar com esse amadorismo que estamos assistindo.
Na parte prática do curso, os alunos poderiam ajudar na limpeza dos manguezais ou rios e lagoas, ou trilhas de Mata Atlântica, retirando as toneladas de lixo, como estratégia para aprenderem a caminhar nestes ambientes. Depois de formados, os voluntários constituiriam um cadastro, podendo ser convocados a qualquer acidente e receberiam um boletim para manter a motivação, mobilização e informação. Tomei a liberdade de enviar uma proposta por escrito ao presidente da Petrobras e já fui informado por um assessor que esta se soma a outras dezenas de propostas que a empresa já recebeu e uma comissão estará julgando os méritos. Quem sabe?
- VILMAR BERNA é editor do Jornal do Meio Ambiente e foi o único brasileiro a receber em 1999 o Prêmio Global 500 da ONU para o Meio Ambiente.
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