Para onde vai a propaganda?
Sei que muitas pessoas gostariam de saber responder a essa pergunta, inclusive e especialmente aqueles que vivem da propaganda direta (as agências) ou indiretamente (os veículos de comunicação de massa e mais uma multidão de negócios complementares e afins).
Há quem pretenda saber a resposta. Por exemplo, existe uma versão que se desenvolve mais ou menos da seguinte maneira: a propaganda estrito senso veiculação de anúncios pagos, na mídia, com o objetivo de persuadir as pessoas a comprar qualquer coisa tende a perder participação no mercado de comunicação de marketing. Isso porque a mídia tradicional está perdendo participação no mercado da atenção dos consumidores. Os mega-eventos, a indústria do lazer e do esporte, a informática e a Internet, tudo isso reclama uma parcela cada vez maior do interesse e da participação/interativa das pessoas, que terão menos tempo para assistir à TV ou ler jornais e revistas.
Logo segue a argumentação no mundo da comunicação de marketing globalizada do futuro, o ato de tornar conhecido um produto, um serviço ou uma marca, vai exigir o esforço combinado de uma imensa estrutura transnacional que conjugará, além das empresas de comunicação tradicionais agências de criação e veículos de comunicação de massa conglomerados de entretenimento, de comunicação virtual hoje agrupados sob o guarda-chuva provisório da Internet e, é claro, instituições geradoras de entretenimento, nicho onde se insere todo o complexo de atividades ligadas aos esportes de exibição (ou seja, quase todos)...
Instalou-se, assim, uma briga entre cachorros muito grandes como AOL, Time-Warner e outros para ver quem é que consegue, primeiro e com mais eficiência, dominar todos os espaços desse futuro Leviatã, que prestará serviços às grandes corporações hoje consideradas como meros anunciantes. Algo, realmente, para tirar o fôlego.
O modelo descrito pelos estudiosos e perseguido com algum afinco pelas megaempresas que acham que saíram na frente é economicamente viável. É teoricamente possível constituir um conglomerado de empresas que cubram todos os aspectos dessa descomunal unidade geradora de comunicações do futuro.
Mas, ao refletir sobre esse modelo evocador dos ambientes tenebrosos que George Orwell criou, em 1948, para assustar o mundo estremecido pelas primeiras bombas atômicas lembrei-me de uma observação de Millôr Fernandes, que li, uma vez, no quadrado que publicava no JB. MF escreveu: Os institutos de pesquisas empregam técnicas cada vez mais científicas; mas o povo insiste em votar leigo. Ou aquela historinha, sobre Garrincha perguntando ao técnico, Feola: Quem é que vai combinar com os adversários para a gente poder usar essas táticas complicadas?
Essas fantásticas empresas podem ser constituídas física e economicamente. Mas será que vai ser possível encontrar as pessoas com as habilidades/talentos necessários para administrá-las? Além disso, como têm lembrado aos profissionais de marketing, alguns autores como Don Peters e Marta Rogers, por exemplo, embora os produtores vendam seus produtos e serviços aos milhares ou milhões os consumidores continuarão comprando um por um... E tomando conhecimento sobre as comunicações a eles dirigidos, uma mensagem de cada vez.
Será que as grandes usinas de espetáculo-comunicação-promoção-publicidade conseguirão gerar essas mensagens? Tenho cá minhas megadúvidas a respeito. Parece-me mais funcional um modelo que corresponda ao crescimento dessas holdings descomunais, à proliferação de pequenas empresas e de operações individuais que, tirando partido do aperfeiçoamento vertiginoso dos instrumentos de criação e de produção de ícones persuasivos (minha sugestão para substituir a antiga forma anúncio), estarão em condições de complementar essas fantásticas campanhas do futuro, dando-lhes a dimensão humana correta, como se sabe, muito pouco mudada desde que nosso avô de Neanderthal resolveu progredir na vida.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é jornalista, publicitário, professor e dirigente universitário em instituição de ensino no Rio de Janeiro
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