No próximo dia 25 se registra 25 anos da brutal morte do jornalista Vladmir Herzog, após ele ter sido subjugado por seus algozes nas dependências do DOI-Codi em São Paulo. Nascido na Croácia, filho único de uma família judia, Herzog chegou ao Brasil aos 9 anos, após a Segunda Grande Guerra. Sua carreira jornalística teve início no jornal ‘‘O Estado de S.Paulo’’ e, mais tarde tornou-se editor da revista ‘‘Visão’’ e diretor de jornalismo da TV Cultura paulista.
Após a instituição do AI-5, em 1968, a ditadura militar permitiu-se convocar para depoimentos qualquer pessoa que julgasse contrária ao regime, e iniciam-se então os mais cruéis tipos de repressão já praticados em um governo brasileiro. Nos primeiros meses do regime, cerca de 50 mil pessoas foram detidas em operações que procuravam suspeitos de subversão ou de qualquer coisa que se ligasse ao governo anterior.
Essas pessoas eram interrogadas e torturadas até que confessassem aquilo que nem sempre sabiam, ou que queriam que soubessem. O plano político da ditadura foi marcado por autoritarismo, supressão dos direitos constitucionais, perseguição policial e militar, prisão e tortura dos opositores, e pela imposição de censura prévia aos meios de comunicação.
Herzog foi convocado para depor com base em suspeitas de sua ligação com a esquerda comunista do País e segundo consta em imprecisos relatórios teria cometido suicídio por enforcamento em sua cela. A enlutada família levou anos a fio em um processo que exigia a classificação de sua morte como crime de assassinato, ato reconhecido pelo governo mais tarde, seguida de indenização de R$ 100 mil aos herdeiros.
No depoimento de assinatura ilegível atribuído ao jornalista pesam sobre o mesmo os ‘‘crimes’’ de recebimento do jornal ‘‘Voz Operária’’ por quatro vezes e de fazer doações mensais ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), como se a participação político ideológica fosse passível de qualquer condenação ou autorizasse a extrema aplicação de pena capital a quem quer que fosse.
A tortura foi ensinada aos militares brasileiros por especialistas americanos, ficando um deles conhecido por ensinar suas técnicas macabras usando mendigos como cobaias. Esse tipo de repressão, por meio do qual o ser humano era humilhado ao extremo, provocou vários suicídios; as pessoas não conseguiam seguir suas vidas com as marcas profundas deixadas pelos torturadores que os levavam ao limite da dor.
Conforme Chiavenato (1994, página 131), ‘‘um balanço ainda precário registra a prisão de 50 mil pessoas. Pelo menos 20 mil sofreram torturas. Além dos 320 militantes de esquerda mortos, outros 144 continuam desaparecidos. No fim do governo Geisel existiam cerca de 10 mil exilados. As cassações atingiram 4.682 cidadãos. Foram expulsos das faculdades 243 estudantes’’.
Não podemos deixar que esses atos de barbaridade de nossa história caiam no esquecimento e acabem se tornando desconhecidos pelas gerações mais novas, que não devem jamais permitir que tais fatos venham a se repetir em nosso País, onde muitos pagaram alto preço para que as gerações futuras pudessem gozar de cidadania plena em um regime democrático, que é um sistema de governo baseado na soberania popular e na distribuição equitativa do poder.
A democracia caracteriza-se pelo direito da população de participar das decisões sobre a administração pública, diretamente ou por meio de representantes eleitos livremente e onde não será mais preciso falar-se das ‘‘dores’’ mas somente das ‘‘flores’’ como dizia o hino cantado por Geraldo Vandré no festival da canção realizado durante esses anos de chumbo.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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