Para ministro, primeiro contas públicas
O ministro Guido Mantega age tal qual seu ex-colega Antonio Palocci ao defender preferencialmente os interesses do Governo e não os dos produtores rurais. Ele rebate as críticas ao pacote agrícola anunciado na semana passada, sem atentar para a realidade mais evidente que é o estado de inviabilidade da produção rural, pela ausência de renda face à crise do momento. E descarta, como primeiro exemplo, baratear o preço do óleo diesel que move tratores e colheitadeiras sob a alegação simplória e muito conhecida de que isso afetaria as contas públicas. Se, no entender do ministro, essas contas não podem ser afetadas, as dos produtores podem? Certo é que, se o sacrifício para sanear as contas da cadeia produtiva exija afetar as contas públicas, então que estas sejam afetadas! Se o lavrador, que produz alimentos, está indo à falência, devem ficar em segundo plano essas tão preservadas contas governamentais. Em situações de emergência será preciso o Governo adotar medidas igualmente emergenciais, e para isto existem as reservas em poder do Tesouro. Ademais, contas públicas, pela ótica dos contribuintes ressalvados os reais compromissos do Governo se traduzem também por gastos exorbitantes da máquina pública, desperdícios, obras superfaturadas e, na ponta da linha, a corrupção generalizada. O que a estatal do petróleo investe em promoções e propaganda poderia ser diminuído de forma a compensar uma baixa no diesel e esta seria a mais proveitosa campanha promocional. Para os produtores rurais, os R$ 60 bilhões de financiamento não são suficientes, porque, em face das dívidas que eles já possuem, só terão acesso a uma ínfima parte desse dinheiro. Portanto, até agora, só aconteceram medidas paliativas. O pleito da classe rural não se limita a esses dois itens mas é mais abrangente e envolve vários outros pontos. Os números do ministro Mantega não batem com os dos lavradores, e assim prevalece a soberania de quem detém o poder, enquanto a atividade do campo vai para o brejo. Se os produtores terão de diminuir plantios, para ter menos prejuízo já que os custos de produção, hoje, estão mais altos do que o rendimento o Brasil terá de importar alimentos. Então as autoridades governamentais verão o quanto as contas públicas serão afetadas! De país exportador de produtos alimentares, o Brasil vislumbra a iminência de converter-se em importador, e por acréscimo com penúria instalada no campo. Não é nenhum consolo o novo titular da Fazenda declarar que irá ''acompanhar de perto'' as reivindicações dos produtores se já se conhece sua posição. Acompanhar ''de perto'' é uma coisa, e tomar medidas salvadoras é outra. Conforme este Jornal tem evidenciado, retratando a realidade, o mal que toma conta da vida rural é a ausência de renda. Ou seja, depois de cobrir os custos de produção, nada mais sobra e ainda há saldo devedor. Para as contas públicas não serem afetadas o homem da lavoura se afunda no endividamento e na falência. É o Governo gastador e pouco operante exercendo governo para salvar a si próprio e não para salvar o que realmente conta, que é a atividade produtiva nacional, sem a qual a nação sucumbirá, levando de roldão também as instituições.





