Para ganhar uma eleição (2)
Gaudêncio Torquato
O que é mais importante na campanha eleitoral: os programas de TV e rádio ou o corpo-a-corpo? Esta é também uma recorrente pergunta que se faz nesses tempos de pré-campanha. Numa campanha, todos os projetos e ações têm seu devido peso, uns se somando aos outros, e influindo para a eficácia global. É claro que, nas capitais e cidades maiores, os meios eletrônicos assumem maior importância, pela dificuldade de um candidato se relacionar diretamente com grandes contingentes eleitorais. Na campanha deste ano, porém, o corpo-a-corpo terá espaço maior que na última campanha.
O eleitor, mais desconfiado e atento, quer sentir de perto o candidato, conferir a naturalidade/artificialidade da campanha, o clima que envolve a candidatura. A comunicação constitui o meio que vai transportar o programa do candidato até a mente do eleitor. Mas não esgota uma necessidade que tem se aguçado nos mecanismos de decodificação dos eleitores: a necessidade da presença física do candidato, acentuada pelo sentido de organização social no Brasil. As entidades organizadas da sociedade civil – que se multiplicam por toda a parte – estão fechando posições com candidatos, e este fato determina o estabelecimento de compromissos por parte de candidatos, o que os obriga a saírem de suas tocas burocráticas.
Os eventos de mobilização das massas – que energizam as campanhas – serão mais direcionados, mais restritos a grupos de eleitores, menos grandiosos e mais ágeis. Deveremos ter uma campanha pontuada por eventos grupais, menos sun© tuosa, mais densa de conteúdo e menos retumbante nas formas. Ou seja, os conteúdos passam a ganhar da estética. As campanhas trabalharão com temáticas mais próximas do eleitor, deixando vez para a interpretação de que não serão federalizadas.
Mas há problemas que mexem com as esferas federal, estadual e municipal, ao mesmo tempo. Por exemplo: a questão do desemprego. É um problema federal e estadual, mas o município, por meio de seus programas de geração de postos de trabalho, também tem sua parcela de responsabilidade. A segurança, nessa esteira, é outro problema que mexe com o dia-a-dia do cidadão. Nesse caso, o candidato não pode simplesmente dizer que vai acabar com a insegurança, sob pena de ser considerado demagogo. Por isso, proposta nessa área deve ser criativa e bem estruturada.
A contundência, o xingamento, a denúncia envolvendo aspectos da personalidade de adversários são elementos válidos na linguagem desta campanha? É bom ter cautela. A contundência, no estilo de virar a mesa, dá medo. O equilíbrio é boa medida. E quem tem roupa suja para lavar, não pode querer sujar a roupa do outro. Mesmo aqueles que são exemplos de vida ilibada não devem se sujeitar às baixarias de campanha. Elogio em boca própria é vitupério, diz o ditado.
A honestidade, por outro lado, não é virtude que deva ser preconizada pelo candidato. Deve, isso sim, ser reconhecida como valor que integra seu perfil. Mas tal reconhecimento é uma prerrogativa de eleitores e não do candidato. O eleitorado, segundo as pesquisas, quer votar em candidatos sérios, honestos, experientes, inovadores e que exerçam a autoridade. Autoridade é contraponto à desorganização, ao caos, ao loteamento de cargos, à corrupção. Tais atributos, se não forem reconhecidos pelo eleitor, poderão ser extraídos dos programas e idéias esboçadas. Alguns projetos estarão no lado da factibilidade e positividade, outros estarão enfeitando o desmoralizado espaço da demagogia.
Dinheiro é importante? É claro que é. Mas o dinheiro nessa campanha será mais curto. Em campanhas anteriores, usou-se muito dinheiro para fanfarronices, esbanjamento em formas suntuosas, eventos ordinários. Em cidades pequenas do interior do País, campanha política é também festa. Nas cidades centrais, a campanha já começa a ser percebida como momento cívico para mudança de valores e perfis. A hora não se presta para extravagâncias. Estamos vivendo uma crise. E a crise engendra novas percepções, novos sentidos, novos desejos e novas atitudes. É bom apostar mais na racionalidade.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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