Para falar sobre matemática, é preciso escutar quem ensina
Escutar os professores é reconhecer que a educação se fortalece quando quem vive seus desafios ajuda a iluminar os caminhos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Escutar os professores é reconhecer que a educação se fortalece quando quem vive seus desafios ajuda a iluminar os caminhos
Fernanda Seidel 
Ao discutir a aprendizagem em matemática no Brasil, a atenção recai sobre avaliações, políticas públicas, currículos e metas. Esses instrumentos são indispensáveis, mas é preciso considerar também a experiência de quem os transforma em prática pedagógica. A Escuta Nacional dos Professores e Professoras que Ensinam Matemática, lançada pelo MEC com apoio técnico do Itaú Social, ouviu mais de 57 mil docentes e revela que parte da solução já está presente nas escolas, na forma de um corpo docente engajado e comprometido. O desafio, portanto, é criar as condições para que esse potencial se converta em aprendizagem para todos.
Para 94% dos professores ouvidos, o trabalho é significativo e tem propósito. Em um cenário em que só 28% dos alunos de 15 anos atingiram o nível 2 de proficiência em matemática no Pisa 2025 - a média da OCDE é 65% -, o dado está longe de ser trivial. Isso sugere que o ponto de partida para a transformação é uma base profissional que acredita no poder da educação mesmo diante das exigências cotidianas.
Mais de 74% afirmam conseguir ensinar estudantes com dificuldades, mas só cerca de 30% têm plena confiança nisso. Há ainda sinais de uma visão contemporânea: 95% veem a matemática como ferramenta para resolver problemas reais, e de 80% a 85% conectam os conteúdos ao cotidiano dos alunos. Práticas investigativas, porém, aparecem menos, o que reflete limitações concretas das escolas, não resistência à inovação.
Por isso, a formação docente ganha centralidade. Nos anos iniciais do ensino fundamental, 32% não se sentem plenamente seguros em alguns conceitos, e só 40% receberam formação nos conteúdos da disciplina. A formação continuada, conectada à realidade escolar, é uma das principais oportunidades, e exige políticas que articulem formação, acompanhamento pedagógico, colaboração entre pares e valorização docente.
A base para avançar já existe. Escutar os professores é reconhecer que a educação se fortalece quando quem vive seus desafios ajuda a iluminar os caminhos. Toda aprendizagem nasce de uma relação humana, e é nela que reside uma das maiores possibilidades de transformação da matemática no Brasil.
Fernanda Seidel, gerente de avaliação e prospecção do Itaú Social


