Diante de algumas afirmações veiculadas na imprensa local, sentimo-nos na obrigação de esclarecer algumas dúvidas que tais declarações geraram e gerarão. O Conselho Universitário, composto por representantes dos diversos colegiados de cursos da UEL, representantes de docentes, funcionários e estudantes, diretores de Centros de Estudos, entre outros, baseou-se em decisões tomadas em reuniões realizadas em seus colegiados, conselhos departamentais. Ou seja, os conselheiros ouviram suas bases para definirem os seus votos e não foram pressionados a votar pela manutenção da suspensão do vestibular. Cada conselheiro votou de acordo com as posições definidas pelos seus pares. Esta atitude é chamada de representatividade e não pode ser vista como pressão da comunidade interna.
Setores da comunidade externa estão pressionando de diversas formas para a realização do vestibular de verão. Contudo, nós nos preocupamos com a universidade, ou seja, com os estudantes que nela desejam ingressar, com aqueles que nela já estão, com a comunidade que necessita de seus serviços, assim como com seus servidores.
Por que todo o empenho em prol das negociações com o governo? Não está sendo priorizada a questão do ensino, mas simplesmente a não realização do vestibular na data prevista. Deve-se discutir os problemas acarretados pelo governo do Paraná pelo pagamento dos piores salários entre todas as universidades públicas brasileiras. Deve-se discutir o investimento necessário para um professor se capacitar, porém levantam-se dúvidas a respeito do ''conhecimento abstrato'' construído, partilhado e gerado pelo nosso corpo docente. Conhecimento dito ''abstrato'' que se transforma em tantas ações implementadas pelos projetos de ensino, pesquisa e extensão e compartilhadas com a comunidade interna e externa da UEL. Tratar com desprezo e com ironia o conhecimento gerado pela UEL durante os 30 anos de sua existência é desconsiderar um patrimônio construído passo a passo por cidadãos que lutaram e lutam pela nossa Universidade.
Agradecemos o apoio e a participação de algumas lideranças locais, reconhecemos o empenho do arcebispo Dom Albano Cavallin e em nenhum momento o tratamos com desrespeito. Não podemos nos esquecer que a missão das lideranças era a de abrir canais de negociação com o governo, missão esta cumprida com bastante ardor, entretanto todos sabiam que o processo de negociação seria longo e que o governador não iria ceder facilmente.
A proposta do governo não evidencia se os servidores terão um reajuste quando não apresenta um montante, ou um índice, ou qualquer outra terminologia que possa designar as nossas perdas salariais referentes ao período de 1997 a 2001. É evidente que se o governo fizesse uma proposta concreta e justa não existiriam motivos para a continuidade da greve. Não podemos nos esquecer que o governo durante a greve de 2000 também se comprometeu em negociar as reposições salariais em 2001.
As entidades tentaram dialogar com o governo antes da greve que se iniciou em 17 de setembro de 2001. Como não conseguiram obter qualquer avanço foi necessário iniciar o movimento unificado de greve. Durante parte do período da greve, o governo Lerner continuou ignorando a mobilização das universidades estaduais. Nas reuniões com os secretários os argumentos para a não reposição salarial foram a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Orçamento 2002; e que o orçamento previa um índice de reposição que não poderia ser divulgado antecipadamente. O secretário Ramiro Wahrhaftig assinou um documento prometendo apresentar um índice de reposição na primeira semana de dezembro. Decisão que foi adiada para o dia 15 de dezembro e, posteriormente, para fevereiro de 2002, estendendo propositalmente o movimento com o intuito de desgastar os servidores frente a comunidade e as lideranças.
Como podemos confiar no cumprimento de ''compromisso de negociação'' para fevereiro de 2002, se não cumprem a Constituição Federal que prevê a reposição salarial anual? Fica evidente que não podemos aceitar uma proposta do governo sem uma discussão com todas as categorias. Feita esta discussão, apresentaremos uma contraproposta ao governo que atenda aos anseios de toda a comunidade universitária em greve e salientamos que a nossa luta é pela continuidade de uma universidade pública, gratuita e de qualidade.


- LÉLIA MACHADO ROCHA PEREIRA é professora da Universidade Estadual de Londrina

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