Assiste-se uma polêmica no interior do governo: por um lado, o vice-presidente, prega o controle dos juros pela política, pois segundo ele, a política seria o agente competente para fixar e controlar ''juros'' de nossa economia, e por outro, os economistas-tecnocratas entendem que a manutenção dos juros é de inteira responsabilidade do setor econômico-financeiro.
Estamos diante de dois campos que muitos analistas pretendem ser distintos. O campo da política e o campo da economia. Até que ponto um campo tem a ver com o outro? Seriam eles autônomos e independentes? A política é o espaço da palavra, o seu exercício requer liberdade e igualdade para que ela surja efetivamente livre, ela é um fim em si mesmo. A política para o homem antigo (grego) se opõe à necessidade, enquanto a economia é o espaço da necessidade, ela gera submissão, opressão e escravidão análogas às que existem nas cidades governadas por tiranos.
A política no mundo moderno (Estado moderno) tornará um meio e não mais um fim. A partir do Estado moderno haverá uma identificação da política como meio. Essa identificação irá apagar a distinção entre a política e a administração. Ela faz da política cada vez mais uma questão de técnica, de habilidade específica o que para o homem antigo era coisa de artesão.
O progresso do capitalismo exigiu um gerenciamento da produtividade econômica, como forma de operacionalização entre o Estado e a sociedade, a fim de garantir o sistema de produção. O gerenciamento do sistema é visto como aquilo que não diz respeito a todos e a sociedade sente os efeitos dele, mas não pode atuar como causa, porque o gerenciamento é coisa de especialista. Ele simplesmente executa segundo uma razão técnica. O perigo é esta razão transformar-se numa espécie de racionalidade universal e a política ser vista como sem sentido, porque o tecnocrata não necessita da legitimação da política.
A economia é política. A política econômica foi uma opção política feita no sentido de se orientar pelos indicadores financeiros, ao invés dos indicadores sociais e, com isso, a visão do tecnoburocrata se colocou acima do debate político e tornou supérfluo o espaço público. As finanças e a produção são necessariamente espaço de tensão. Talvez, a sociedade constituída de milhões de anônimos consumidores e trabalhadores mal remunerados, gostaria de ver a resposta a algumas perguntas que escondem aquilo que afeta suas vidas.
Em primeiro lugar, por que as taxas de lucro dos bancos, da indústria, comércio e serviços preservadas nos níveis de economia em crescimento não são também responsáveis por alguma somatória na taxa de inflação? Qual o impacto das taxas de juros no crédito ao consumidor, numa queda mesmo que generosa na ''taxa Selic'', quando o preço do dinheiro praticado na ponta do consumo é quase oito vezes a taxa de referência? Será que à imensa maioria só resta assistir à queda de braço entre monetaristas, desenvolvimentistas e corporativistas que usam o espaço da política para fazer nele sua própria negação?
JOSÉ MARIO ANGELI é professor do departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina

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